Aurora de róseos dedos - I

Por Gadiel Perrusi
I
Beatriz olhava intensamente a pirâmide de cristal que trouxera de sua última viagem, há menos de uma semana. Viagem insossa. Azar, talvez. Paris estava cinzenta e úmida, chuva fina, ventinho frio, calçadas molhadas. Perto da Pont Neuf, comprara algumas coisas mais ou menos exóticas. Nem tanto! Um leque indiano, um tarô de Marseille, um foulard de seda, a pirâmide. Pequena, cabia na palma de sua mão. Tornar-se-ia companheira inseparável, onde quer que estivesse, mesmo em viagens.
Lembrara-se do último fim de ano, vestida de branco, jogando escamas de peixe ao mar. Faltava a pirâmide de cristal, lhe dizia a manicure. Talvez tivesse exagerado. Não precisava ser tão cara. Os amuletos baratos, afinal de contas, servem do mesmo jeito, principalmente quando não se acredita neles. Mas a pirâmide, puríssima na transparência, vinha do Mali, terra de mistério, abençoada por impossíveis deuses africanos. Era feita de pedaços de luz que se transformavam em arco-íris, quando a chuva deixava. Como se pudesse, através dela, capturar o sol preguiçoso de Paris para, depois, guardá-lo na cabeceira de sua cama.
Ainda na calçada, viu a pirâmide faiscando sob a forte iluminação da vitrine, como se oferecendo à sua posse. Pensou que poderia confiar-lhe os segredos mais bem guardados e receber de volta a paz quase perdida no verão anterior. Ela refletia uma luz difusa, ao mesmo tempo sugando e expulsando os raios dos vários spots da loja, trazendo-lhe de volta a presença múltipla de Berta, mais de um ano depois.
Gostava de sentar num café parisiense, desses que invadem as calçadas, observando o que pudesse; pessoas mas, principalmente, as coisas que levavam. Tudo a fascinava. Colecionara na memória centenas de bolsas femininas, guarda-chuvas, pastas, livros, bengalas, lenços, turbantes, casacos, um cachorrinho vestido de inverno, um homem que calculava ao seu lado, tomando um anis. Uma criança apressada, com seu cartable nas costas. Um rapaz de óculos se debatendo com um pacote enorme, na saída do métro. Tudo lhe interessava enquanto deixava o express esfriar, substituindo-o por uma perrier que mal tocava.
Uma semana sem graça. Com a chuva, as pessoas se apressavam, quase escondendo os seus objetos. Pior. Com tanta umidade, dificilmente poderia ficar numa praça, lendo um livro, tomando um sorvete. Sentar-se à beira do Sena, com as pernas à mostra, levando sol. Olhar, preguiçosamente, as vitrines do Boulemich, do Saint-Germain e da Rue de Rennes, mesmo esbarrando na multidão de turistas. Nos domingos, preguiçar no Luxembourg e, depois, ouvir o concerto de órgão na Notre Dame. Em tais momentos, queria ser observada, relaxando do seu inocente voyeurismo amador.
Gostava de receber um bonjour; bavarder um pouco, mesmo com um desconhecido. Nem queria, aliás, que fosse conhecido. Paris seria sempre aventura, nada de romantismo exagerado. Para isso, seus olhos bastavam, ainda que a maldita chuvinha do último verão não a deixasse sonhar. Não que estivesse à caça. Isso lhe fazia mal. Preferia provocar o acaso, mesmo que lhe trouxesse frustração quando nada acontecia.
No ano anterior, chegara, também, em pleno verão. Como sempre, dedicava a última etapa de viagem a Paris. Mas, então, fazia calor, os jardins estavam cheios, praças movimentadas, cinemas quase impossíveis, calçadas repletas. Justamente por isso, sempre tinha companhia no restaurante, à noite, em Montparnasse, seu quartier preferido, partilhando mesas, a critério do maître.
Da primeira vez, fora um casal de jovens. Beijavam-se mais do que comiam. Talvez se comessem de verdade em algum grenier mal iluminado do Boulevard.
Uma noite, tivera companhia feminina, em mesa menor, à beira da calçada, num bistrô ao lado de La Coupole. Conversaram um pouco, mais por politesse, num francês razoável. Alemã, loura como Beatriz, mais jovem, visitando amigos. Sozinha como Beatriz. Querendo ser observada, também. Olhos negros da Baviera, profundos como os lagos da Floresta Negra. Fixou-os, perdidamente, para seu próprio espanto, tremendo e esquecida da sobremesa.
Após o café, sua companheira fumava em silêncio, como se esperasse qualquer coisa que Beatriz não ousava dizer. E se ousasse? Mas, o que dizer, já sentindo a batata da perna quase oca, como lhe ocorria quando ficava ansiosa demais.
Berta não tinha mais de trinta anos. Estava em Paris, fugindo do ar glacial da floresta. Como os bárbaros de antigamente, pensou Beatriz. Saia curta, pernas bem torneadas, blusa fina de seda, seios redondos. Nunca havia pensado nos seios de outra mulher. Notava-os, como o fazia desde o colégio, mas nunca pensara nisso. Não estava pensando, de fato, enquanto olhava para Berta. Apenas, talvez, curiosa em saber se os mamilos dela seriam, também, cor-de-rosa como os seus. Quase sem perceber, isso lhe provocara um grande desconforto. Por que tal curiosidade?
Berta mantinha um ar divertido e não parecia,de modo algum, estar preocupada com o olhar fixo de Beatriz. Falou, apenas, da coincidência do encontro; duas louras, uma de olhos negros, outra de olhos verdes, saídas de mundos opostos. Os de Beatriz deveriam ser azuis, segundo Berta.
_E por que não cor-de-rosa? - Murmurou Beatriz, sem querer. Berta jogou o cigarro na calçada e disse que os olhos só ficavam cor-de-rosa quando queriam descobrir alguma coisa.
E Beatriz nem queria tanto! Contudo, seu mal estar aumentou quando percebeu o significado do que dissera Berta. Estivera falando, o tempo todo, com os olhos grudados nos seios da companheira de mesa, mal contidos pela blusa de seda branca.
Beatriz jamais desejara uma mulher. Apenas, achava curioso quando abordada algumas vezes. Nenhum desejo, nenhum toque além daquilo que as mulheres se permitiam, com maior liberdade do que os homens. Nenhuma amiga especial com quem tivesse tido intimidades, longamente.
Berta seria diferente? Suas mãos eram delicadas, dedos longos, unha amarelada de nicotina, cabelos curtos como somente, agora, começava a notar. O inesperado, a noite quente de Montparnasse; os possíveis mamilos cor-de-rosa de Berta não saíam de sua cabeça. Deveria lhe perguntar? Não seria óbvio que louras tivessem bicos dos seios cor-de-rosa? Faria papel de boba, sendo a menos jovem das duas? E por que somente os seios? Já percebera suas pernas arredondadas, o rosto, os olhos, suas mãos. Por que, agora, somente os seios de Berta lhe interessavam?
Berta sorria para um homem que se aproximara da mesa. Falavam alemão e Beatriz se viu acometida por um violento ciúme. Aquele homem devia saber. Já os vira, já os tocara, já os beijara. Mordeu os lábios e disfarçou, com batom, o quase ferimento. Berta a olhava, desta vez muito séria.
_Curt quer saber se ficaremos juntas.
_Gostaria, se você quiser. - Respondeu, assustada pelo violento impulso de desejar acompanhá-los.
Berta e o amigo queriam tomar um ballon de rouge na Bastille. Depois, ouviriam jazz no apartamento de Curt, perto da Place des Vosges. Seus dedos se tocaram levemente e um suor frio quase lhe escorria pelo pescoço. No caminho do métro, Berta acariciou levemente as costas de Beatriz, terminando por enlaçar, com firmeza, sua cintura.
No deux pièces de Curt, continuaram a bebericar enquanto conversavam, com frases intercaladas em alemão, seguidas de desculpas sorridentes. Beatriz sentia-se relaxada, sentada no tapete artesanal, com desenhos exóticos de motivos orientais. Berta deitou-se ao seu lado e Curt parecia cúmplice de um namoro não declarado. Aproveitando uma troca de disco, bocejou sonolento e, simplesmente, desapareceu.
Sozinhas, na segunda bouteille de vinho, quase sempre a decisiva, Beatriz não precisou pensar. Sentia a mão de Berta acariciando sua coxa, à procura de algo escondido. No bistrô, não percebeu se as mãos de Berta, longas e inquietas, seriam também macias. Eram mais quentes do que macias, certamente. Beatriz teve medo de tantos detalhes. Como se estivesse ainda indecisa sobre o que fazer. O desejo, no entanto, guiava suas mãos em direção dos seios de Berta, enquanto deixava, sem sentir, o caminho aberto dos seus pêlos.
A seda vestida por Berta lhe provocava uma euforia insana, ao mesmo tempo em que apertava suas coxas prendendo mãos e dedos de sua amiga, como se temesse o toque já esperado. Como se os mamilos de Berta pudessem lhe fugir do alcance. Não ousava lhe pedir que parasse. As veredas se juntavam logo adiante e Berta já estava perto demais para recuar. Selvagem, quase bêbeda de luz, Beatriz descobriu os seios de Berta e, tomando-os como cálices, bebeu o néctar rosé de mamilos quentes e acolhedores, enquanto, enfim, sentia seu próprio açude invadido pelos dedos de Berta, provocando-lhe uma explosão incontrolável.
A pirâmide encerrava seus medos e impulsos. Insistia em produzir imagens, que Beatriz vivia quase em negativo. Na sala de aula, alunos costumavam baixar os olhos em sua direção e ela sabia que suas pernas ainda eram alvo de cobiça. Pouco ligava. Não havia semestre em que um deles não se declarasse apaixonado. Fogo de palha. No máximo, beberia um chopinho na saída da aula. Depois, um telefonema envergonhado, perguntando pelas notas, já entregues, aliás, na Secretaria. Um dia, pensava, viria sem calcinha somente para assustá-los.
A pirâmide, com seu fetiche cotidiano, lhe trazia a proximidade de Berta, como um espinho na carne, que a espantava e inquietava, deixando-a em compasso de espera. Sentia-se sozinha, num casulo tropical, sem prestar atenção às coisas da cidade ou do trabalho. O fantasma de Berta, como vampiro, sugava-lhe o tempo, que brincava em rápidos lampejos.
Depois de tanto tempo, percebia, com clareza, que tinha voltado ao mesmo bistrô parisiense à procura de Berta, ignorando a unicidade do acaso, alheia até mesmo ao frio cortante deste outro verão. Très doux, como diziam os franceses.
Lembrava-se, agora, de que, quando acordara, ainda despida, Curt estava colado a Berta, que dormia. Cobrira as duas com um lençol durante a madrugada e deitara-se junto à amiga. Beatriz foi ao banheiro e, na volta, encontrara os dois já acordados se espreguiçando. Provavelmente, haviam transado, enquanto ela própria dormia.
Deitou-se, novamente, ficando entre eles, sem nenhuma idéia do que fazer; talvez apenas para isolar os seios de Berta daquele corpo masculino não desejado. Curt massageava suas costas. Berta sorria, incentivando o amigo, enquanto ela própria acariciava os pêlos de Beatriz. Começava a gostar de ser amada por todos os lados ao mesmo tempo, como se a totalidade das coisas se realizasse apenas num ato.
Não queria ser penetrada por trás, mas aquele parecia ser o preço que Berta lhe exigia. Naquele momento, pelo menos, sua paixão estava diante dos seus olhos, como a reencontrava, agora, olhando sua pirâmide. Curt, no entanto, apenas lhe tocava, passeando as mãos pelo seu dorso, provocando-lhe pequenas excitações, aqui e ali. Para se aquecer, talvez. Tempo de paixão em bares e cinemas; as madrugadas inteiramente gastas num quarto de hotel ou no apartamento de Curt.
Um ano sem notícias de Berta. Um solitário postal de Freiburg, prometendo vir ao Recife, se o frio da floresta apertasse novamente. Às vezes, relia trechos da carta que escrevera para Berta, logo após ter recebido o cartão postal.
“Não leio, não durmo e tudo se cala. Como se não existissem vento, nem chuva, nem onda, nem praia. Apenas o silêncio do tempo que morde e não fala. Escrevo em homenagem à tua improvável visita. Escrevo, pois, em homenagem ao abstrato do passado, quando seios e lábios se amaram. Escrevo para minha solidão que jamais será menor do que o imenso verde das águas defronte de minha janela (…)
Teu cheiro inundará esta cidade, devassando minhas portas. Teu cheiro apenas, carregado de todas as saudades sem romper o tecido do tempo. Estarei te esperando em vão, pois os signos já se foram e os códigos se apagaram. Como o fogo exaurido e que somente é fogo enquanto resta o segredo da chama. Do calor contido na palavra enquanto escrevo, embora sua matéria tenha se transformado em pura bruma (…)
Não apagarei os sons capturados em corpos estendidos em tapete estranho, nem tampouco os acordarei para que não se tornem impuros (…)
No meu silêncio, vejo apenas teus olhos negros, teu sorriso longo, teus seios dançarinos, tuas mãos passeando e penetrando no meu corpo. Ponta de lábios, meu suave pouso em tua pele que, como brasa, me reduz à tua infindável presença”.
(continua)