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Um dia de Orson Welles

5 comentários

Remexendo a memória, até porque preciso de algum passatempo para esquecer as desgraças da vida, tipo terceirona, etc e tal, lembrei-me de uma cena acontecida nos idos do século passado. Na época, Perrusi Pai morava em Cabedelo e trabalhava numa rádio comunitária, cujo chefe era, imaginem vocês, Orravan. Perrusi Pai tinha um programa dominical às duas e meia da tarde, cuja pregação atéia reverberava em todas as praias da região. Todo mundo ficava pregado no rádio, escutando suas invectivas contra os céus. No final de cada programa, ele sempre dizia:

Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve Deus e por que está aqui, Ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável

Então, uma voz altissonante e grave, provavelmente a de Orravan, fechava o programa:

Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu“.

Era tudo muito ameno e jovial. E ninguém esperava o que iria acontecer. Num certo dia de março, Perrusi Pai inventou de ler um capítulo do seu romance “A Campina da Torre“, Daniel e os Marcianos. Lembro-me de que a sua leitura causou uma baita confusão. Acho que ele se encharcou de cachaça Serra Limpa, pois esse programa saiu completamente fora do habitual. Começou a ler uma passagem de Douglas Adams, o mais maluco escritor de ficção científica de todos os tempos:

Muitas raças acreditam que o Universo foi criado por alguma espécie de Deus, embora os jatravartids, habitantes de Viltvodle VI, acreditem que, na verdade, o Universo inteiro tenha escorrido do nariz de um ser chamado Megarresfriadon Verde.

Os jatravartids, que vivem constantemente com medo de uma era que chamam de “A chegada do Grande Lenço Branco”, são pequenas criaturas azuis que têm mais de cinqüenta braços, sendo assim absolutamente únicos por terem sido a única raça em toda a história a inventar o desodorante em spray antes da roda

Eu estava na praia quando escutei essa maluquice. O povo, nas barracas, murmurava inquieto, parando de comer os caranguejos e de beber a cervejinha. Ninguém entendia nada. Todo mundo esperava alguma estória bíblica e sua posterior desmistificação. Inclusive, anunciaram na rádio que Perrusi Pai  falaria sobre o paraíso, alguma coisa do gênero. Foi quando começou a ler  “Daniel e os Marcianos“.

Nessa hora, ao meu lado, estava Fernando. Já parara de comer uma patola de caranguejo. Escutava atentamente o rádio e a estória de Daniel. Meneava a cabeça. Ele estava perturbado. Aliás, todos estavam. Eu não entendia o porquê. A estória tinha um rasgo de dramaticidade inofensiva, não mais do que isso. A reação de Fernando era exagerada. Ele teve um sobressalto, afastando-se bruscamente da mesa com um grito sôfrego, descarregando a tensão que continha a duras penas. Foi um grito singular e mais terrível ainda porque foi respondido: todos estavam gritando assim.

_Os marcianos estão chegando! – disse desesperado.
_Claro que não, Fernando, isso é uma estória de papai – falei, tentando acalmá-lo.

Mas não adiantara, pois continuava inquieto, olhando a multidão que já corria pela praia, procurando algum abrigo inexistente.

_Eles vão chegar pela praia! – exclamou e saiu desembestado.

Olhei a praia. Tudo muito calmo, tudo muito sereno, exceto pela agitação das pessoas gritando e fugindo de marcianos invisíveis. Perrusi Pai continuava na rádio, agora ainda mais dramático, falando dos extraterrestres. Ele estava no ápice da estória:

_ (…) tem uns marcianos todos de verde escondidos na Campina prontos pra matar todo mundo aqui do bairro… 

_Ô, bando de doido, é numa campina, nem é na praia! – disse, tentando brincar com o povo.

Mas o povo continuava louco, correndo da praia e em toda direção.

De repente, alcançou-me um sopro insalubre de maresia, seguido de um ruído hediondo bem ao meu lado. A areia da praia mexia-se ao meu redor. Milhares de marias-farinha saíram aos borbotões dos buracos, todas correndo de lado, afastando-se do mar. Estava tetanizado. Queria gritar por socorro. Queria levantar e não conseguia. No instante seguinte, fui jogado da cadeira pela diabólica pancada de alguma titânica entidade invisível de natureza indefinida, enquanto emergia do mar um tal alarido abafado de suspiros e chiados que minha fantasia povoou a praia com legiões miltonianas de criaturas verdes. Formou-se um vórtice de vento quente e paralisante, levantando tanta areia que tudo ficou escuro. Completamente cego, senti logo em seguida um cheiro forte de sargaço, escutei um apito agudo e um tipo curioso de chapinhar que não soava como passos. Eu não gritei, mas todos os fantasmas demoníacos que rondam a praia de Intermares uivaram por mim. O barulho era ensurdecedor. Foi quando desabou sobre a minha retina, naquele mesmo instante, uma única e fugaz imagem de aniquilar a alma.

_Cruzes, o que é…

Mas, antes de saber o significado daquilo tudo, eu misericordiosamente desmaiei, caindo na areia. Ao longe, nem deu para escutar, tocava Sulk do RadioHead, e as marias-farinha dançavam loucamente:

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Quando acordei, tudo estava calmo novamente. Não havia sinal de agitação alguma. Parecia que nada acontecera. Não havia nem mesmo sinal das marias-farinha. A praia estava deserta. Não escutava mais a rádio e corri para ver o que acontecera com Perrusi Pai. Ele estava desmaiado, e um filete de sangue escorria de seu nariz. Passou um mês meio abobalhado, não dizendo coisa com coisa. Eu perguntava sobre os marcianos, e ele borbulhava um riso louco. Com o tempo, desisti de indagar sobre isso.

O único que parecia são, o que era um mau sinal, era Orravan. Encontrei-o meditando na praia, um dia depois do acontecido. Contou que a Nasa tinha passado por Cabedelo e jogado de um avião uma substância que causava amnésia, por isso ninguém lembrava de nada.

_E os marcianos? – perguntei.
_Não posso falar sobre isso. Fui ameaçado pelos americanos.

Nesse momento, lembrei-me de Fernando. Não o tinha encontrado ainda.

_E Fernando? Você sabe onde está?
_Foi abduzido. Deve estar sofrendo terríveis sevícias sexuais…
_Pelos marcianos?

Reina o silêncio até hoje…

Meses depois, Fernando apareceu e parecia acometido pelo Destino. Mancava levemente e tinha uma certa dificuldade em se sentar. Fiquei na minha e nunca mais abordei a questão.

Perrusi Pai não quis mais fazer o seu programa dominical. Logo em seguida, Orravan fechou a rádio comunitária. Perrusi Pai aproveitou a deixa e se mudou para o Recife.

Pois é… A vida voltou ao normal.

A vida, a gente vive, depois esquece.

Sementeiras
  1. Ainda bem que o Fernando escapou (quase) são e salvo…

  2. Mas veja, eu apenas machuquei a perna na hora de sair do disco voador. São muito mal pensadas essas portas de disco voador…

  3. Ah, sim, isso explica a razão das mancadas…

  4. A furunculose alienígena explica a dificuldade em se sentar, claro…

  5. Muito bom! O trote de Orson Welles ganhou o mar de Intermares. Soube que a rádio comunitária fechou por essas bandas, mas abriu em Obel-O-Kan e está sendo administrada pelo reverendo Tsé-Tsé.

    Soube também que em Intermares o reverendo é considerado um alienígena. Aliás, o povo de Intermares passou a ter medo de pessoas com lenços na lapela. enquanto isso, a NASA matém um silêncio estrondoso.

    Um abraço,

    Dimas Lins

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