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A Importância do Chifre na Construção da Cultura Ocidental

11 comentários

Quem acessava este blog, lembra-se de Orravan, o amigo de Freud. Pra quem não sabe, a importância do cabra é imensa nas formulações teóricas e terapêuticas da psicanálise. Há boatos de que a  síndrome de castração, conceito nodal para descortinar o gênero humano, só foi pensada por Freud depois de uma surra que levou de Orravan. Tais surras, além do efeito dissuasivo, influenciaram  bastante a epistemologia freudiana. Inclusive, é de Orravan, e  não de Sigmund, a famosa frase “o que querem, afinal, as mulheres“? Até hoje, convenhamos, tal questão continua um mysterium tremendum para a filosofia e para o gênero masculino. 

Sim, Orravan foi um dissidente polêmico da psicanálise. Fornicou com a cunhada de Freud e espalhou, pelos quatro cantos do mundo, que teria sido Sigmund, o autor da empáfia. Depois do imbróglio, Freud teve sonhos retumbantes com a mãe e descobriu o complexo de Édipo. Foi pedir satisfações a Orravan, mas levou outra surra e foi se esconder atrás da cristaleira tcheca do seu apartamento. Foi, justamente, atrás da cristaleira, que Freud descobriu, escondido também, o inconsciente. Na calada da noite, saiu do esconderijo e, cheio de Id, foi dormir com sua cunhada. O boato virou realidade, e Freud nunca mais falou com Orravan, seja por medo, seja por causa da verdade

Pois é, Orravan nunca mais escreveu. Tudo indica que desapareceu, mas não se escafedeu. Escutei que estava na Groenlândia testando a hipótese do aquecimento global. E parece que obteve resultados relevantes, provando e desprovando o fenômeno. Ouvi cochichos que vendeu os resultados positivos ao Greenpeace e a Al Gore e os negativos à direita estadunidense e a Veja. Ficou podre de rico, dizem. Vive a perambular pelos becos de Copenhagen, frequentando o Full Extinct, famoso restaurante dinamarquês, aberto em 1914 e especializado em carne de bebê de foca.

Nesse restaurante, Lou Reed tocava e cantava comumente, principalmente uma música que fez com John Cale: “Songs For Drella A Fiction”:

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Orravan, que é bem emotivo, caía em prantos, lembrando do passado e da cunhada de Freud. Para relembrá-lo, edito um texto antigo, no qual nosso amigo discorre sobre um tema central da ontologia humana.

Lá vai:

Por Orravan (31/01/2007)

chifre_2.jpgCerto dia, os dois filhos do rei de Tróia resolveram fazer uma visita de cortesia a um dos homens mais poderosos da época: Menelau, rei de Esparta. Chegando lá foram recebidos como reis (até aí tudo bem, pois eram príncipes). Tiveram uma recepção calorosa, com eventos, jantares, apresentações à sociedade espartana, e farras daquelas de perder a caixa-preta.O problema é que Menelau era casado com Helena, uma baita loira que, além de um monumento de mulher, era da pá virada. Mas como era a mulher do rei, ninguém mexia com ela. Ninguém até chegarem os troianos, pois o mais novo, que se chamava Páris, a primeira coisa que fez dar aquela espiada de cima a baixo que deixou a moça nua até nos olhos. E o pior: foi prontamente correspondido. O destino armava ali uma encrenca de proporções homéricas.Quando se cruzavam nos corredores do palácio, Páris que era um sujeito muito galante, abordava Helena com sutileza:_ Mas que saúde, hein… Ao ouvir isso, Helena, que percebia seu sistema endócrino em ebulição, retrucava animada: _ Mas o que é isso? Eu sou mulher casada!

E Páris, com a elegância de sempre:

_ Casado não é capado, ora essa.

Ao que Helena, com um sorriso oculto na alma, replicava:

_ Olha o respeito!

E a coisa caminhou de tal maneira que logo estavam os dois botando a juripoca pra piar pelos recônditos do palácio. A lambança pegou fogo de tal maneira, que os amantes traçaram planos e acabaram fazendo a maior presepada com Menelau. No dia da partida dos Troianos, Helena arrumou uma matula e se pirulitou junto com Páris. Claro que o tempo fechou quando o rei acordou e não viu a mulher.

Menelau, que era corno mas não era manso, ficou uma arara. Queria ir pro pau a todo custo. E reivindicou um antigo tratado grego que obrigava às cidades da Hélade a se ajudarem no caso de ofensa a qualquer uma delas. Os reis todos tentaram abafar o problema, “ih, mulher tem em todo canto”, “mas era uma vadia”, “não vale a pena”, e outras argumentações igualmente argutas. Mas Menelau não queria conversa e aliou-se a seu irmão Agamenom, uma espécie de Bornhausen da época, que nutria um desejo antigo de passar com o trator por cima de Tróia, porque era uma cidade muito rica, que começava a incomodar com sua prosperidade, que proporcionaria um butim espetacular e também porque ele queria livrar-se daquela raça por uns 300 anos. As sacanagens de Helena e Páris eram um pretexto incontestável para um sujeito com o caráter notoriamente duvidoso como ele posar de líder moral e, por conseqüência, pretender o cargo de chefe militar, que acabou se tornando.

A invasão e a guerra dos gregos contra Tróia durou 11 anos. Tróia foi arrasada. Milhares de mortos dos dois lados. Mesmo vitoriosos, muitos gregos perderam o rumo e as viagens de volta para casa duraram mais 20 anos. Uma série de tragédias se abateu sobre vários dos guerreiros gregos. Agamenon, por exemplo, foi morto pela própria esposa e o amante dela, assim que pisou de volta em casa. Ulisses teve que promover uma chacina contra as dezenas de pretendentes de sua esposa, que lhe haviam invadido o lar.

No fim das contas a guerra e seus desdobramentos serviram de tema para Homero escrever os épicos Ilíada e Odisséia, dois dos grandes fundamentos da cultura ocidental. Ou seja, se não fosse a traição de Helena, esses fundamentos não existiram. Sem eles não existiria a cultura grega antiga. Sem a cultura grega, o que seria do Império Romano? Sem Império Romano não haveria cristianismo. Sem cristianismo não haveria Idade Média, Igreja, Absolutismo, Iluminismo nem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. E sem Direitos Humanos este texto dificilmente versaria sobre questões espirituais ou culturais. Seria mais provavelmente sobre a melhor estratégia de invadir e saquear o apartamento do vizinho e, em caso de sucesso, brindar o resultado da empreitada em seu crânio.

Assim, o que salva o crânio desse vizinho é, em última instância, o aplique com que Helena adornou a testa de Menelau. Não fosse o furor uterino da bela rainha de Esparta e o nosso vizinho estaria agora com as horas contadas.

Todo o universo que conhecemos como “Civilização Ocidental”, portanto, tem suas raízes num Chifre. Procedendo desta maneira, ao sabor da natureza, Helena forjou as bases do mundo ocidental e elevou o Chifre à condição de motor da história e de alicerce da cultura moderna.

Torcedor
  1. artur, esta é a melhor interpretação das origens da historia ocidental que eu já vi.só tem dois probleminhas: o que é que vão dizer os meus professores maxistas do curso de história da UFPE, que diziam, que o motor da história é a luta de classe, e o outro é o que é , que os meus alunos da 5ª série vão dizer do prfessor deles das aulas de Grécia ,depois deste texto?

  2. Na verdade, Marx interpreta o Chifre como luta de classes. Lembro que o dito-cujo transou com a governanta. A querida Jenny soube e se vingou no primeiro operário irlandês que apareceu: Tommy, que sabia mexer num tear automático como ninguém. Há indícios de que os furúnculos marxianos eram somatizações de ramos que se acumulavam na sua cabeça. Marx chamou tal fenômeno de “acumulação primitiva do capital” — sempre achei obscura essa expressão; agora, entendo melhor.

  3. Virei fã do Orravan (de onde vc tirou esse nome, Artur?), e gostaria de fazer um pedido. Acho que só ele é capaz de esclarecer a verdadeira origem da expressão “Freud explica” – atualmente repetida até por louras tico-teco frequentadoras de ambientes que vão da Daslu a Daspu (tá, reconheço que não há grande variação nisso, desculpa).
    Sempre fui intrigada com a expressão. Sei do senso comum, mas não creio tão facilmente assim nele. Tenho certeza ABSOLUTA que o Orravan tem algo a ver com isso.
    Fico aguardando mais uma manifestação do Mestre. E se ele não me explicar isso direitinho, vc já sabe a quem vou cobrar explicação. É, a ele mesmo: o próprio.

  4. Dona Ana, aviso à senhora que Orravan não sou eu; aliás, acho que ele é capaz de voltar a escrever só por causa dessa confusão. Segundo Freud, Orravan é um ególatra, mas suspeito que essa afirmação seja produto do sectarismo freudiano. Quanto à expressão “Freud explica”, Orravan me disse, uma vez, que surgiu durante o serviço militar de Freud. Como Freud era judeu e o ambiente na Wehrmacht era um tanto antisemita, Sigmund defendia-se, para não perder a face, respondendo a qualquer pergunta que lhe era feita. Perguntavam, ele prontamente respondia. A mais difícil veio de um capitão — posteriormente, membro das SA — que lhe perguntou por que os ursos hibernavam. Assevera Orravan que Freud respondeu imediatamente e que o capitão ficou impressionado, espalhando que Sigmund, de fato, explicava tudo. Tempos depois, um coronel, chefe desse capitão, confidenciou que sua mulher o traía com um ex-cabo, parece que austríaco, ex-combatente da Primeira Guerra e metido a pintor — o capitão disse: _Freud explica! O coronel pensou que fosse um insulto e enviou o capitão à corte macial. Foi julgado traidor e fuzilado…

  5. Broda,

    A frase “o que querem, afinal, as mulheres” é prima-irmã de outra, que traduz a mesma perplexidade masculina: “Porque as mulheres ficam 20 anos tentando te mudar, para depois te perguntarem porque não és mais o mesmo” ?? Mistérios…

    Ana, como tenho mania de ler nomes estranhos ao contrário, vi que surge algo com sentido, mas daqui de Minas não tenho a menor condição de te dizer o que significa…

    Abs.

  6. Edmar, pode abrir o jogo do Navarro. Ademais, sua explicação seria de Minas para Minas, onde estou morando – mais precisamente, Sul de Minas. E então?

  7. Ana, sobre esse misterioso personagem Orravan, só os Perrusi tem condições de nos fornecer mais dados… esse blog, aliás, é cheio de participantes misteriosos… Orravan, Tsé-Tsé, Afta…

    Quem sabe uma biografia não autorizada do Orravan, na forma de folhetim, aqui no Blog? Broda, a bola é sua…

    Onde você está morando, Ana?

    Sou de BH.

  8. Um dos textos mais comicamente absurdos que li nos últimos tempos! Quem sabe, a mesma grandeza não se reserva ao Santa Cruz, depois da chifrada que esse levou do destino, Artur?!

  9. Sancho, não fale do Santinha, não… Fico triste pra moléstia… E será difícil aparar a chifrada que o Clube do Santo Nome levou…

  10. Edmar,

    estou morando em Alfenas, cidade ao Sul de Minas situada entre o ET de Varginha e as bruxas globais de Serrania. Fica uns 3,7km depois do local onde o diabo perdeu as botas, a uns 70km do cinema mais próximo e pelo menos 300km longe de civilização.
    Mas gosto daqui.

  11. Eu conheço Alfenas. Minha cunhada morou aí uma época, e nós a visitamos umas duas vezes. Boa cidade.

    Hoje tenho um primo que mora em Fama, aí pertinho, na beira do lago de Furnas, onde uma parte de minha família Fonseca morou no passado.

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