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Três leituras estimulantes

4 comentários

Antes de tudo, uma música belíssima cantada por Marianne Faithfull,  ”As Tears Go By”:

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Por Perrusi Pai, 

Acabo de terminar a leitura de três livros e gostaria de partilhar o prazer que senti com os visitantes deste Blog.

Ei-los:

- DENNETT, Daniel (2006) – Quebrando o Encanto: A religião como fenômeno natural. São Paulo, Globo Editora;
- DAWKINS, Richard (2007) – Deus, Um Delírio. São Paulo, Companhia das Letras;
- HITCHENS, Christopher (2007) – Deus não é grande; como a religião envenena tudo. Rio de Janeiro, Ediouro.

O norte-americano Dennett é um filósofo da ciência e já nos presenteara com o extraordinário texto “A perigosa idéia de Darwin”, (1998), Rio de janeiro, Rocco. Tratando-se de um filósofo evolucionista, nada a estranhar que ele tenha querido levar a Teoria da Evolução às suas últimas conseqüências lógicas.

Agora, em “Quebrando o Encanto”, Dennett volta-se para um objeto mais específico e de implicações tanto históricas quanto psicológicas e filosóficas. O “Encanto” refere-se a dois sentidos do termo, isto é, o que se esconde atrás do fenômeno religioso e o fascínio humano pelo sobrenatural e pelos fatos maravilhosos. Para o Autor, e essa é sua tese principal, a Religião é um fato natural, construído pela humanidade ao longo de sua história e deriva necessariamente de sua própria evolução biológica e cultural. Em suma, a humanidade constrói seus deuses à sua própria imagem e semelhança. E não o contrário, como insistem em nos ensinar autoritariamente.

Dennett é um autor extremamente cauteloso e gentil para com seus eventuais leitores, crentes ou não. Ele escreve para um público americano em sua maioria fundamentalista. Seu livro é, justamente, destinado a leigos em Filosofia e, por isso mesmo, didaticamente, o Autor vai-nos revelando pouco a pouco, sempre explicando os termos técnicos que utiliza, sua preocupação pelo avanço das forças reacionárias e retrógradas que ressurgem no mundo atual sempre tendo como um dos pólos a religiosidade.

No entanto, seu estilo, talvez um pouco paternalista, é leve e fluido o suficiente para tornar seu livro uma leitura agradável e prazerosa. O Autor quase nos pede desculpas por sua tarefa de “quebrar” o encanto religioso, analisando com profundidade as motivações psicológicas, emocionais e, até mesmo racionais, da religiosidade, além de estudar as origens das maiores religiões atuais, demonstrando suas irracionalidades e anti-historicidades, nem sempre evidentes.

Acredito que o livro de Dennett seja uma excepcional introdução aos dois últimos citados, de Dawkins e de Hitchens. O convite a pensar criticamente o mundo e a humanidade, em suas diversas manifestações sociais, em especial a Religião, já seria motivo suficiente para crentes e não-crentes, isto é, “encantados” e “desencantados”, percorrerem com atenção dobrada as páginas de “Quebrando o Encanto”.

Chamaria a atenção para o eventual leitor das muitas reflexões críticas não apenas sobre a “crença em Deus”, mas, principalmente, para os ateus convictos, sobre “a necessidade da crença em Deus para a humanidade”, que muitos dos últimos ainda defendem. Nada mais do que uma crítica filosófica à jocosa expressão de Voltaire de que “se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”. Aqui, segundo minha leitura, trata-se da crítica às muitas consolações que a fé seria capaz de produzir.

Dennett se opõe a tal “encanto”, mostrando as próprias maravilhas da natureza e da vida humana, em si, em especial o pensamento crítico e nossa capacidade de produzir conhecimento como substitutos da irracionalidade religiosa.

O professor britânico da Universidade de Oxford, Richard DAWKINS, é um célebre biólogo evolucionista, autor, entre outras obras, do best-seller “O Gene Egoísta”, traduzido e publicado em Lisboa pela Gradiva, (2ª ed., 1999).

Por cima da “suavidade” do filósofo Dennett, Dawkins nos surpreende com uma investigação vigorosa e, às vezes, agressiva, sobre a existência ou não de um ser divino. Trata-se, evidentemente, do cientista que agarra seu objeto com unhas e dentes, apresentando provas e provas e refutando provas e mais provas contrárias. Apesar disso, Dawkins é possuidor de um estilo extremamente agradável, temperado pelo bom humor, às vezes hilariante, e pelo desejo de nos convencer pela razão, e somente pela razão, de suas teses.

“Deus, um Delírio” porque, segundo a definição do Autor, delírio significa uma falsa crença persistente diante de fortes evidências que a contradizem. Em suas mais de 500 páginas, Dawkins apresenta, em primeiro lugar, os argumentos tradicionais para a existência de Deus, herdados da Lógica aristotélica e de São Tomás de Aquino, para, logo em seguida, refutá-los.

O argumento principal do Autor baseia-se no conceito de “improbabilidade” que, para ele, “não depende de juízos subjetivos”. A existência de Deus seria, pois, altamente improvável, “embora não seja tecnicamente descartável”. De fato, ainda refutando a lógica do primeiro motor de Aristóteles, ou da primeira causa de Tomás de Aquino, Dawkins, como já afirmaram outros lógicos modernos, como Bertrand Russell, por exemplo, escreve que  “a existência de Deus nos coloca diante de uma regressão infinita da qual ele não consegue nos ajudar a fugir!” Em suma, como dizia Hume, a improbabilidade da vida não significa que ela tenha sido projetada, como querem os defensores do “Projeto Inteligente”.

No entanto, do meu ponto de vista, os capítulos mais interessantes de “Deus, um Delírio” são aqueles em que o Autor disserta sobre as raízes e a história das religiões, dos males que ela tem provocado ao longo do tempo e, especialmente, do que ele chama de “abuso dos direitos naturais da criança”. Além, é claro, do terror dos castigos, do fogo do inferno, da culpa que são inculcados na mente infantil pelos padres, pastores e quejandos.

De fato, uma criança ainda não tem o desenvolvimento mental, emocional e intelectual para se declarar convictamente católica, protestante, muçulmana ou coisa que o valha. Em vez disso, dever-se-ia dizer “uma criança de pais católicos, etc, etc”.

O Brasil, por exemplo, é tido como o maior país católico do mundo. Na verdade, para Dawkins ( e eu concordo inteiramente com ele), o Brasil  seria o país que possui mais pessoas adultas católicas do mundo. Trata-se, evidentemente, de um “vício mental ou cultural”, alimentado pelos pais, escolas, Igrejas e instituições oficiais.

Problema semântico parecido ocorre com a insistente, embora necessária, recomendação da Organização Mundial de Saúde, de se abandonar o hábito de chamar uma pessoa portadora do mal de Hansen, de “leprosa”, da síndrome de Down, de “mongolóide”, bipolar, de “maníaco-depressivo” e assim por diante, face aos preconceitos que tais denominações primitivas trazem para aqueles pacientes.

Finalmente, chegamos ao terceiro livro, escrito por Hitchens, “Deus não é Grande: como a religião envenena tudo”.

Hitchens é um jornalista não acadêmico. Correspondente internacional, britânico, radicado em Washington, D.C.. Embora não tenha o compromisso acadêmico da cátedra, como Dennet e Dawkins, nosso terceiro Autor possui uma longa experiência em debates públicos, acadêmicos ou não. Especialista em reportagens para grandes jornais e TVs, visitou quase todas as áreas de conflito bélico do mundo moderno, entrevistando e confrontando pessoas das diversas facções que se matam e guerreiam por nada ou quase nada. Arriscando, aliás, sua própria vida como ocorre com todos os correspondentes de guerra.

Não acadêmico, mas seguramente um Autor de grande erudição em várias áreas do conhecimento. Se Dennett, para usar uma metáfora futebolística, forma o meio campo, preparando e distribuindo as jogadas; se Dawkins é um ponta de lança agressivo e divertido; Hitchens é um centro avante que derruba todas as barreiras que tem pela frente na busca incessante de um “gol de placa”.

As primeiras páginas do livro se assemelham, por assim dizer, a uma corrida de Fórmula Um. O Autor parte em alta velocidade, num  estilo alucinante, embora fascinante, em busca dos seus objetivos. Pouco a pouco, o bólido desacelera e nos deixa respirar e pensar dentro de um imenso universo de conhecimento histórico e dos fatos contemporâneos.

Por outro lado, o exercício da polêmica, ou da retórica, como diriam os antigos, faz com que Hitchens quase se antecipe aos argumentos do leitor. Além disso, ele é implacável com seus adversários, usando seu faro de jornalista para descobrir e expor os embustes religiosos, impostos aos crentes de todas as religiões.

Na verdade, pelo menos para mim, é o estilo alucinante, embora de modo algum panfletário, que torna os argumentos de Hitchens mais eficientes até mesmo daqueles defendidos pelos dois autores anteriores. Ou, então, quando os repete e os cita, concordando ou, ligeiramente, discordando deles.

De fato, para além dos seus conhecimentos científicos, o jornalista Hitchens parece não gostar das metáforas. Vai crua e diretamente aos fatos. Cita as pessoas pelos nomes, data os fatos, escancara suas fontes de informação. Deliciosamente, relata episódios de suas inúmeras viagens ao redor do mundo, destacando personagens contemporâneos, escolhendo exemplos, confrontando argumentos.

Seus objetivos são claros: demonstrar que a Religião em todas as épocas tem sido um mal para a humanidade e que esta deveria reconhecer a maldade das Igrejas e abandonar de vez as crenças primitivas religiosas, colocando toda a sua confiança na razão crítica e na busca do conhecimento.

Sementeiras
  1. Penso que, segundo todas as religiões, se Deus existisse seria um grandissíssimo filho da mãe: o pai punitivo, irascível, da culpa e do castigo.

    Não sei se sou atéia, não sei se sou agnóstica, não sei se me interesso tanto pelo tema ao ponto de ler os três livros indicados. Mas ao menos o de Dawkins eu me senti com a obrigação de ler.

    Grata pelas indicações, mas advirto de um perigo: você faz uma sinopse tão atraente que aposto na sua capacidade de despertar o interesse em ler o livro que você quiser que leiam. Até de Paulo Coelho. Cuidado com essa arte! rs.

  2. Usando as palavras de Paulo de Tarso: ” quando eu era criança, pensava como criança e agia como criança…” Está na hora da humanidade deixar de ser criança e largar estes mitos infantis…
    Sou agnóstico convicto e fiquei curioso sobre a terceira indicação, parece ser um livro mais incisivo. Acho que este deve ser o tom para despertar os crentes de seu delírio.

  3. Ana Cláudia: obrigado pelo comentário. Paulo Coelho , jamais. Escreve mal e sobre falsos objetos. Por indicação de Artur, visitei o seu Blog. Certamente, o mais bonito de todos os que já vi. Apreciei seus escritos, especialmente os poemas com belas e significativas frases poéticas . Andei retrospectivamente pelo Blog e li sua observação quanto ao jogo dos “memes”. Você confessa que não tem a mínima idéia do que seja “meme”. Aí vai a troca de informações. “Memes” são um termo e um conceito criados por Richard Dawkins em “O Gene Egoísta”, no Cap. 11, “Memes: os novos replicadores”. Gostaria que você visitasse o antigo “Site dos Perrusi”, onde publico uma novela, intitulada “A Campina da Torre”. Tenho certeza de que você seria uma leitora muito importante para meus ensaios de literatura. Um abraço.

  4. Perrusi Pai:
    (sem palavras para agradecer à gentileza do elogio).
    Você aconselha a leitura de “O Gene Egoísta”? Cuidado, não me deixe transformá-lo em um guia literário. Nesse quesito, pareço coronel: cobro sempre mais indicações, e o pagamento é nenhum… trabalho escravo mesmo, viu? Cuidado! rs.
    Vasculhei, vasculhei, e terminei encontrando a versão completa de “A Campina…” há pouco. A salvei no computador, e tenho certeza que ela irá me salvar nesse feriadão frio e chuvoso de Minas.
    Dúvida: onde eu faço o comentário da Campina? Aqui no blog mesmo ou você prefere que eu mande por e-mail?
    Bom, se preferir manter contato por e-mail, meu endereço é anaclaudia.nog@gmail.com
    Abraço,
    Ana Cláudia

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