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Cuba Libre: impressões de uma viagem

Por Perrusi Pai
Julho – 1983
Nota Preliminar
Em 1983, fui convidado pela Associação de Historiadores Latino Americanos e do Caribe (ADHILAC) a apresentar um trabalho sobre o Nordeste brasileiro em Cuba, o país de Fidel Castro. O texto, escrito em anos anteriores para o CEDEC-SP, levava o título de “O Caranguejo e o Viaduto” e tratava dos contrastes nordestinos, especialmente os conflitos de classes sociais. Era uma época de grande ebulição cultural e social, dentro de um contexto de reivindicações sociais nos últimos estertores da Ditadura Militar. Construíam-se grandes viadutos e obras de fachada e, pelo menos numa delas, o viaduto que liga a zona sul à Av. Agamemnon Magalhães, os operários foram apedrejados pelos moradores de favelas próximas que iriam desaparecer logo depois das obras.
CUBA LIBRE representa, resumidamente, minhas primeiras anotações, quase em forma de Diário, sobre o que vi e vivi em Cuba durante uma semana, certamente temperadas por um certo humor oscilante, ora de admiração, ora de incompreensão e, até mesmo, de reprovação bem humorada às realizações cubanas da época.
Deste modo, o presente texto sempre me pareceu provisório mesmo porque escrito, por assim dizer, no calor da hora. Escrevi a pedido de Perrusi Filho, na época um jovem estudante de medicina politizado, que manifestava uma intensa curiosidade sobre a Ilha. Além disso, o texto, por sua própria natureza, é coloquial sem pretender nenhuma profundidade de análise cientifica.
Bayamo, 25-07-l983
Artur, mon petit,
Aqui, está um esboço de reflexões sobre o que vi e senti em Cuba e, não, propriamente, um Diário, como te havia prometido. Tentei escrever tudo aquilo de que me lembro, recheado de algumas observações pessoais.
Do Recife ao Rio, tudo transcorreu bem, a bordo de um Airbus. No Galeão, de três da tarde às nove e meia da noite, providenciei os dólares. Foram somente 500, quando pensava que seriam 1.000, o que me fez transportar cruzeiros, em demasia, durante toda a viagem.
Li, também, quase todo o livro “Odisséia 2.010″, de Arthur Clarke, chato e quase sem propósito, exceto explorar o sucesso do livro anterior. Peguei, então, o DC-10 da Varig para Lima, num vôo tranqüilo e com um serviço de bordo perfeito. Na cadeira ao lado, sentou-se um bispo peruano e fomos conversando sobre religião até nosso destino. O Bispo era devoto de Nossa Senhora das Montanhas e eu, devoto de absolutamente nada. Mas, foi uma conversa bastante divertida. Na descida, doeram-me os ouvidos, como de hábito, mas suportei bem a dor.
Em Lima, sofro o primeiro ataque da miséria latino-americana, com inúmeros motoristas de táxi, numa verdadeira caçada, querendo me levar para os hotéis os mais diversos, cobrando 10 dólares pela corrida. Acerto com um deles por 8 dólares, o que já era, certamente, um roubo. Na verdade, a cena foi um repeteco do que já me ocorrera em Quito, em 1981.
Às duas da madrugada, sonolento, não deu para ver nada de Lima, exceto sombras de uma cidade mal iluminada. O Hotel, que me haviam indicado no Brasil, não mais existe, se é que existiu algum dia, o que me recordou outro episódio semelhante ocorrido em Londres, embora por lá não houvesse miséria à vista.
Ainda perplexo, diante do prédio onde deveria estar o hotel “Alcazar”, outro carro se aproxima com dois colegas brasileiros, Pinsk, editor do livro de tua mãe, e Ribeiro, de Assis. Não havia percebido que chegáramos a Lima no mesmo avião e, depois de lamentar meus 8 dólares perdidos, combinamos ir para outro hotel passar o que restava da noite.
Às oito da manhã, o madrugador Pinsk nos telefona do aeroporto, avisando que o avião nos esperava para a conexão Lima – Havana, apesar de termos marcado nosso vôo para a tarde pela Aeroflot para, justamente, podermos passear um pouco em Lima, enquanto que ele, Pinsk, havia preferido um vôo mais cedo.
Não adiantou a explicação. Novamente, pelo telefone, ele nos diz que “os cubanos queriam que fôssemos logo”, antecipando a viagem e que o avião nos esperaria! Parafraseando Asterix, resmunguei: “esses cubanos são loucos”. Por cima de tudo, faltava o visto cubano desde que, no Brasil, ainda era perigoso se viajar para Cuba.
Pegamos, então, eu e Ribeiro, um táxi sem taxímetro, o que gera, sempre, uma discussão em torno do preço da corrida, pagando 3 dólares por um mesmo percurso que me havia custado, no dia anterior, 8 notas verdes. E lá fomos, através da cidade para o aeroporto, num fusca, de fabricação brasileira, caindo aos pedaços.
A visão de Lima, à luz do dia, pelo menos nas partes por onde o táxi passava, é de uma miséria igual ou pior do que a existente nos bairros periféricos do Recife. As ruas servem de depósitos de carros velhos e enferrujados, e as pessoas que víamos eram pobres, miseráveis , mal vestidas e feias, além do lixo acumulado em todos os cantos. Segundo conhecedores do lugar, somente há coisas bonitas no centro da cidade, construídas no tempo dos espanhóis, isto é, a cerca de duzentos anos.
Para sair de Lima, mesmo já com o visto cubano, tivemos que mostrar o passaporte umas dez vezes, o que me irritou bastante, esquecido do fato de que o “Sendero Luminoso” costuma atuar, também, na capital do país e de que os militares peruanos, apesar de corruptos, e talvez por isso mesmo, morrem de medo dos guerrilheiros. Muita confusão, portanto, mas conseguimos chegar, em bom estado, ao Tupolev da “Aviacción Cubana”, que nos esperava, por mais de uma hora.
Tal fato, inédito para mim, restabeleceu meu bom humor, significando quase uma vingança pessoal contra os aviões que sempre foram esperados por mim, em aeroportos nem sempre agradáveis, por este Brasil a fora. Basta dizer que nossa bagagem viajou na cabine do piloto porque o bagageiro do avião já estava fechado.
Aeronave vazia, tendo como passageiros apenas os seis brasileiros-historiadores. E, com isso, comecei a entender por que o avião se dispusera a esperar tanto tempo por passageiros que nem sequer tinham bilhete para aquele vôo.
Pensei, logo, um pouco ironicamente, que os cubanos queriam fazer concorrência desleal com os russos da Aeroflot, mas, creio, que se tratava de um equívoco de minha parte, como pude verificar, mais tarde, em Havana, com os problemas da conexão para Holguin. Em suma, como nos explicaram, os cubanos estavam nos fazendo um favor, pois, se pegássemos o vôo da tarde, teríamos perdido aquela conexão, tendo que dormir em Havana sem que ninguém estivesse nos esperando.
O Tupolev é um tri-reator, equivalente ao Boeing 727 e não apresenta nenhuma novidade maior. O serviço de bordo é péssimo, comparado com o da Varig, por exemplo, e tanto as aeromoças como os tripulantes parecem com “gente do povo”, sem nenhuma especialização, o que, seguramente, não passava de preconceito de minha parte, como muitos outros que tive que rever mais tarde.
Contudo, o avião voa igualzinho aos outros capitalistas, com dor de ouvido e tudo.
E este foi o primeiro contato com os cubanos. Daí por diante, tive que fazer um grande esforço mental para me adaptar às novas realidades.
Depois de três horas de vôo, paramos no Panamá e nos mandaram sair para a ala internacional, pois a escala seria de “uma ou duas horas” (sic). Foi, é claro, de duas horas! Nada sei do Panamá, portanto, exceto visitar uma enorme sala cheia de butiques e de máquinas de jogar, como via nos filmes americanos.
Atrasei-me em retornar ao avião. O barulho era muito grande, a acústica péssima e o “tempo mais ou menos” da escala, anunciada pelo próprio comandante, me deixara tranqüilo demais.
Quando, enfim, avisado pela aeromoça, que nos procurava na ala internacional, no meio de uma multidão de jogadores de máquinas de moedas, entrei à bordo, o avião estava lotado. Cerca de 200 pessoas embarcaram no Panamá, em direção a Havana e Madri, segundo me disseram. Pedi para sentar na mesma poltrona em que chegara, uma janela, onde abandonara, despretensiosamente, meu paletó, mas não deixaram, o que me irritou um pouco, pois teríamos mais duas horas e meia de viagem num avião lotado.
Aparentemente, os atrasados não tinham os mesmos direitos, ou os tinham diminuídos, num avião cubano. O tripulante, talvez movido pela pressa, foi até mesmo um pouco rude comigo, apontando-me, de um modo autoritário, a única poltrona disponível, apesar de ter devolvido meu paletó.
Na verdade, devo reconhecer que ele tinha razão, embora não precisasse ser tão autoritário, desde que as informações sobre a escala panamenha haviam sido imprecisas e, até mesmo, enganosas. Em Lima, nenhuma pressa e, ainda por cima, mandam chamar o passageiro no hotel, esperando-se mais de uma hora para isso. No Panamá, uma pressa total e, ainda por cima, não guardam os lugares dos passageiros em trânsito. O serviço de bordo, como antes, foi péssimo!
Sentei-me, ou fui obrigado a sentar, ao lado de um enorme negro panamenho que fedia como um bode, não permitindo que eu movimentasse os braços, pois tomava todo o espaço lateral disponível. Na frente, um senhor qualquer resolve baixar sua poltrona e, como o espaço entre as poltronas era reduzidíssimo, fiquei, literalmente, preso sem poder fazer nada.
Em tal situação, comi o almoço, espremido, com os braços colados ao tórax para, depois, terminar o livro de Clarke. Enfim, para um vôo chato, um livro mais chato ainda!
Aterrissamos em Havana às três da tarde, hora local. Cansado, sem ter dormido bem, juntaram-nos num lote, enquanto, de outro avião, saíam pessoas bem vestidas e que eram recebidas com rosas por crianças e moças. Certamente, pensei, não eram historiadores!
No aeroporto, de saída, com um calor próximo dos 40 graus, demoramos numa enorme fila até chegar a um guichê, onde um guarda, desconfiadíssimo, confiscou nossos passaportes, bilhetes aéreos e bagagens, mandando-nos para o bar do aeroporto, à espera da conexão para Holguin, a 600 Km de Havana, perto de Bayamo, cidade do Congresso Latino – Americano de Historiadores.
Cuba Libre: impressões de uma viagem II
Cuba Libre: impressões de uma viagem III
Cuba Libre: impressões de uma viagem IV
Cuba Libre: impressões de uma viagem V
Cuba Libre: impressões de uma viagem VI
Cuba Libre: impressões de uma viagem VII

















Perrusi Pai,
Cheguei agora a pouco em casa, ansioso por ler este texto. É que, como sempre acontece, estive com Perrusi Filho no jogo do Santa e ele me confirmou que publicaria Cuba Libre ainda hoje. Já estava na expectativa há algum tempo.
Li até a segunda parte e fiquei entusiasmado. Devo confessar que a expectativa que fiquei depois das conversas com Artur estão se confirmando. Excelente e oportuno relato para compreender a ainda incompreensível ilha.
O sono bate e embora os aborrecimentos naturais pelo jogo do Santa me deixem irritados, a leitura me proporcionou um momento único de reflexão para pensar, ver e entender do ponto de vista de um brasileiro como é a vida na ilha.
Um abraço e amanhã lerei o restante.
Dimas Lins
Prezado Sr. Perussi,
Modéstia, o diário é primoroso (me parece um diário sim). Entre outras coisas adorei “Escrevi a pedido de Perrusi Filho, na época um jovem estudante de medicina politizado” e “Na cadeira ao lado, sentou-se um bispo peruano e fomos conversando sobre religião até nosso destino. O Bispo era devoto de Nossa Senhora das Montanhas e eu, devoto de absolutamente nada” (aqui estava dando boas risadas) e por ai vai…
Obrigado pelos bons momentos de leitura,
Abraços.
Sr. Perrusi Pai:
Ainda estou na leitura da primeira parte do relato, mas decidi comentar antes mesmo de dar cabo à ansiedade de ler o todo. Que texto maravilhoso! Dá vontade de ler, e ler, e ler…
As minúcias e impressões acerca do que é sentido e visto são narradas de forma tão simples e bela! E pensar que foi escrito para o filho, “um jovem estudante de medicina politizado”…
Bem, para resumir: fiquei encantada com o texto, mas a idéia de um relato tão cuidadoso e rico feito para um filho – você se prestando a ser os olhos do seu filho num ambiente tão precioso para este filho politizado – é ainda mais emocionante. Fez com que me lembrasse do meu pai. Fez com que eu desejasse que ele tivesse escrito algo assim para mim.
Parabéns, Pai e Filho.
Ana Cláudia:
Obrigado pelos seus comentários. Peço-lhe apenas que tire o “Sr.” da frente do meu nome. Não sei se você sabia, mas fui pai de Perrusi Fiilho aos quinze anos de idade. Portanto não sou assim tão velhinho que mereça tanta cerimônia. Um cheiro.
Perrusi Pai,
perdão pelo “Sr.”, mas a culpa é do Vanvan aí em cima (vi a formalidade, resolvi seguir). Problema resolvido!
Tomei a liberdade de indicar seu texto para vários amigos, via e-mail. Se eu não fosse tão anta, teria aberto um link dele no meu blog, mas…
Enfim, mais uma vez, parabéns.
Perrusi Pai-Pai,
Quanto assanhamento…não bastou o conto erótico?! Vanvan também pode retirar o tom cerimonioso ou somente as moças? Adorei o relato sobre suas impressões de Cuba, ainda mais para o filhote. Sensível e leve. Se eu fosse nascida na época tinha batido uma ciumeira, viu? Esta é a sua praia (e não Candeias): relatos de viagem – gênero delicioso que você devia insistir mais nos presenteando novamente; agora indo à Roma e contando suas impressões sobre a restauração da Capela Sistina. Beijo de admiração para um pai tão jovem (a paternidade na adolescência foi traumática?)
Gadiel:
A leitura causou uma espécie de saudade do que desconhecido. Nunca fui lá, não sei se vou algum dia. Mas já posso dizer que “conheço” um pouco.
Estou 100% solidário com o que Marília chamou de assanhamento. Que seria de nós sem ele? Assenhemo-nos pois! Eia! Sus! Avante!
E qualquer hora, arrumando tempo, vamos divagar (jamais “devagar”) mais sobre o bom uso de bundinhas e quetais em contos eróticos.