O Galo da Madrugada - parte I

Por Perrusi Pai
Naquele sábado de carnaval, acordei inquieta e ansiosa sob a grossa coberta que me protege do ar condicionado. Na noite anterior, dormira ao embalo de um frevo antigo. A frase musical não me saÃa da cabeça: O Recife acordou de repente!
Nada pra fazer naquela manhã. Detestava carnaval. Odiava o pega-pega pegajoso, como dizia, sonorizando a expressão, como se fosse um frevo. Apesar disso, imaginava um sabor misterioso, excitante e repugnante, de ser tocada e pegada, cheia de suor, por fulano, sicrano, ou por todo mundo que estivesse por perto, dentro de uma arrepiante multidão. E não era só isso! Havia o medo, especialmente, em ruas estreitas, sem nenhuma possibilidade de me esconder ou de fugir.
A lembrança do som, no entanto, continuava, puxando-me da cama. Contrariando meus hábitos, dormira sem calcinha. Como nos velhos tempos de casada! Sonhara com Leonardo acordando, me pegando e dizendo que gostava do contato com minha bundinha. Sua tesão parecia maior. Muitas vezes, por preguiça, recusava qualquer aproximação. Tinha que levantar, escovar os dentes, tomar café e sair correndo para o trabalho. Não era propriamente preguiça sexual, mas doméstica. Às vezes, dormia de pijama, mais protegida das suas investidas. A camisola era permissiva e ele atacava quando eu estava nos últimos e mais gostosos pingos de sono. Fingia estar com raiva, ter dormido mal, isso ou aquilo, mas era tudo preguiça mesmo.
Naquele sábado, acordei também preguiçosa, mas excitada com o sonho. Ainda não eram sete horas. Demorava-me na cama, aproveitando o friozinho do quarto em contraste com o calor imenso represado no corpo. Algo diferente se desenhava. A possibilidade louca de sair anônima entre as centenas de milhares de pessoas do Galo da Madrugada, sem me preocupar muito com os bons costumes.
Os passarinhos começaram a cantar no ninho que, anualmente, construÃam no lado de fora do ar condicionado. Por vezes, passava tempos escutando. Mas, agora, seus trinados competiam com o batuque dos blocos que já ensaiavam na minha rua.
Dia ensolarado no Recife! Na semana anterior, chovera bastante, antecipando as águas de Março. Carnaval molhado, pensara. Nem na praia, onde mantinha um apartamento, daria pra ficar.
Por que tanta aparência de seriedade num mundo cheio de incertezas? Hoje beija, amanhã não beija! Ontem choveu, hoje faz sol. Por que não aproveitar o agora? E por que a dúvida e o desejo apareciam juntos? Dei mais um cochilo. O barulho da rua me fez acordar novamente.
Levantei e preparei meu café, como todos os dias. A presença do sonho já estava diluÃda pelo calor da manhã, libertando-me de qualquer dúvida e deixando apenas o desejo, como pássaro que volteia em cima de uma árvore cheia de frutos.
O som, lá fora, me chamava! Recebera um convite especial pra ir olhar o desfile da sacada de um apartamento; apenas pra sentir o espetáculo. Rejeitara, motivada, como sempre, pela minha antiga aversão carnavalesca.
Agora, a tentação voltava diferente. Ir sozinha e anônima, como uma aventura em terra desconhecida. Sem nenhum preconceito! Se não gostasse, bastaria pegar um taxi de volta. O desejo estaria satisfeito, mesmo que não houvesse nenhuma história pra contar nem conseqüências a suportar.
Recusara, também, alguns convites para brincar na rua; em grupo ou com um amigo. Detestava grupos, o colega nem tanto. Mas não era lá muito animador sair acompanhada para, no dia seguinte, ter que enfrentar o disse-me-disse costumeiro. Se quisesse, seria mais discreta e mais direta. Transformaria o desejo em coisa privada como, aliás, fazia com tudo na vida.
Não! Naquele momento, queria misturar o público e o privado no mesmo saco. Deixar, pelo menos uma vez na vida, cair a máscara de séria e responsável que tanto me pesava. Um manto de chumbo espesso sobre o corpo e alma, sem mostrar nada mais do que o necessário, isto é, quase nada.
O café estava tomado, arrumadas a mesa e a cozinha. O desejo persistia. Ainda havia tempo para decidir. Seguramente, não iria ao Galo acompanhada. Os convites tinham sido recusados. Não seria, agora, que voltaria atrás.
Bem que poderia me fantasiar de nada e me divertir sozinha à toa, anônima mascarada, como em Veneza. Mas que nada! Seria possÃvel, mesmo, me esconder de encontros ocasionais? Que fantasia poderia improvisar? Queria ficar irreconhecÃvel ou, pelo menos, com uma identidade duvidosa.
Pensei que o melhor, talvez, fosse vestir um short velho, uma blusa opaca, sem nada por baixo. Enrolaria o cabelo dentro de um chapéu de praia, calçaria um tênis e sairia por aÃ. Que me vissem!
Deste modo, no entanto, perderia a tesão pelo desconhecido, o gosto pela aventura, com todo mundo me reconhecendo. Assim, não valia a pena enfrentar o suor, a bebida, o barulho e a fealdade do centro da cidade.
Minha dúvida continuava, acrescida, agora, de um quase desafio; de saber se resistiria à aventura. A oportunidade era ótima! Ainda sentia o rabinho quente de quando acordara!
Na verdade, nunca liguei muito para minha bunda. Leonardo é que se dizia tarado por ela. Eu tinha uma certa curiosidade em ser comida por trás. Vivia o tempo todo, quando bebia um pouquinho, desafiando Léo a comer minha bundinha, o que lhe causava uma tesão danada. Às vezes, mesmo, chegava a me oferecer de verdade. Seu pauzinho é que não ficava com nada!
Não que estivesse maluca, querendo dar pra qualquer um! Tudo bem! Nem mesmo sabia, ainda, se sairia pra ver o Galo. De qualquer maneira, poderia dar tudo, menos a bundinha!
A preguiça era tanta, que voltei prá cama. Foi pior! A tesão parecia aumentar; estranha, abstrata, misteriosa.
Meia hora depois, não resisti e fui ver o Galo.
Pintei a cara, metade azul, a outra encarnada. Botei um short azulado. Justinho! Pro carnaval, decentÃssimo. Vesti uma blusa de seda creme, sem mangas, que acentuava meus peitinhos, mas não deixava nada de fora. Pra que sutiã? Queria livrar meu corpo de qualquer restrição. Umas pulseiras de enfeite, um lenço vermelho e outro azul no pescoço, um chapéu branco, terminando com um par de tênis bicolor. Um pé azul e o outro vermelho, é claro!
Estava preparada pro que desse e viesse! Na porchete, havia dinheiro para táxis, cervejinhas e muito mais…
Desde a Rua do Riachuelo, estava tudo cheio de gente. Apesar do meu pavor de multidões, fui caminhando apertada, empurrando e sendo empurrada, até chegar aos Correios, pra ver o Galo mais de perto. Até então, morri de rir, cruzando ou ultrapassando colegas, alunos e parentes, sem ser reconhecida.
Sentia-me esfuziante, sozinha e livre. Ao contrário do que pensara, a multidão deixou de me incomodar. Percebia, pela primeira vez, que o anonimato me incorporava a ela. Não pensei mais em olhar ninguém ao redor, com medo de ser reconhecida.
Que me vissem! E da� Eu era a DIANA, equilibrando-me entre a virtude e o pecado, saltando buracos nas calçadas, andando pelo meio da rua, me rebolando quando queria, sem nem perceber a sujeira e o mau cheiro do Recife.
Enfim, sós. Eu e a multidão!
Encostada numa pilastra do prédio dos Correios, tomei uma cerveja para abrandar a sede e o calor de quase onze da manhã. Ao meu lado, ou melhor, por todos os lados, as pessoas corriam, paravam, se empurravam, se abraçavam. Eu me firmava de encontro à parede!
_ Oh, meu chapa! Aperta um pouquinho pra lá que eu quero ver a festa!
Vi-me quase a gritar para um homem bem alto, que estacionara na minha frente. Percebi que minha posição não era das melhores. Poderia, no rush, ser esmagada de encontro à parede.
Mudei de lugar. Equilibrei-me na beira da calçada, em cima do meio-fio. O sol estava no auge e eu suava em bicas, me rebolando e cantando com a multidão.
Não sentia qualquer euforia erótica, nem me lembrava mais do que me fizera sair de casa. Apenas, a expectativa de ver surgir o Galo, me defendendo dos empurrões. Acho que o calor era tanto que, por mais que meu corpo estivesse quente, esquecera-me dele. Na verdade, tudo estava quente e sentia-me totalmente enredada e integrada na multidão.
De súbito, ouvi uma enorme gritaria. Um trovão de vozes! O povão começava a se agitar na Rua do Sol, com o Galo, delirante, despontando com um ruÃdo de fazer inveja a qualquer recreio de Jardim da Infância. Tentei me erguer um pouco na ponta dos pés, mas não conseguia vislumbrar praticamente nada.
Em suma, viera pra ver, mas apenas estava ouvindo o Galo passar!
Resmungando de frustração, senti algo macio encostando na minha bunda, exposta ao sol da Avenida. Encostando e começando a passear ao longo do meu rabinho. Para meu próprio espanto, não esbocei nenhuma reação, coisa impensável, dez minutos antes.
Ao contrário, compulsivamente, comecei a ajudar o vai-e-vem de algum cara que se postara por detrás de mim. O Galo da Madrugada entrara na Guararapes e duas mãos me enlaçaram pela cintura, pressionando, mais ainda, meu traseiro.
_ Desculpe! — Ouço uma voz meio grave - Não agüentei assistir o balanço do seu rabinho.
Parecia uma montanha russa, descendo e subindo. Numa direção horizontal, apenas: primeiro uma coxa, depois, um pau cheio e duro, a outra coxa, perpetuando o movimento.
Resolvi ignorar tudo e continuar, deixando o cara me bolinar à vontade. E da� Nem sabia quem era, se preto ou branco, forte ou magro. Apenas uma voz agradável. Tudo bem! Que mal faria uma voz? Nem pau, nem pernas! Apenas uma voz acariciando minha bundinha! Comecei a achar gostoso. Tentei me concentrar no desfile, com uma certa dificuldade. Resolveria depois o que fazer. As mãos começaram a subir pela minha blusa, roçando as curvas de lado dos meus peitinhos.
O Galo, as mãos, o pau, a bunda! Diacho! Logo agora? A quentura começava a aumentar, trazendo-me as lembranças de quando acordara. E a� Parecia adivinhação! Daria ou não daria? Sairia correndo atrás do Galo ou ficaria me esfregando nos Correios?
Olhei para os braços que me cercavam. Eram morenos, curtidos de sol; as mãos enormes, segurando-me com firmeza, não pareciam brutais. O suor e o barulho me davam uma idéia meio turva da situação. Sabia apenas que minha bundinha não parava de remexer no mesmo ritmo do frevo.
Estávamos sós, ninguém nos via. Mas, já se percebiam alguns claros na Guararapes. Grupos esparsos corriam em busca do som. Comecei a acordar um pouco, quando o cara cometeu seu único erro. Ofereceu-me uma cerveja!
Claro que queria! Ele foi logo buscá-la, pensando que o ato seguinte seria me enrabar num motel qualquer.
Rapidinha, pulei do meio-fio e me confundi com a multidão, tentando, pouco a pouco, baixar meu fogo ainda aceso. Não! Não daria minha bundinha para um desconhecido, mesmo que o chamego estivesse uma delÃcia, era forçoso reconhecer!
Que bom! Respirei com um certo alÃvio. Um pau sem nome, uma bunda anônima. Empate completo!
Na Pracinha do Diário, avistei Marquinhos, lá do Tribunal. Uma gracinha de rapaz, meio tÃmido, com fama de bicha. Gostava de sua delicadeza, dos gestos compassados e de sua voz bem pausada. Pra mim, ele não tinha nada de bicha. Apenas um rapaz bonito que não gostava de se exibir.
Já nos conhecÃamos bem. Às vezes, conversávamos na Biblioteca do forum. Parecia um bom advogado e sempre estava a me perguntar sobre bibliografia jurÃdica. Tinha sido noivo e, no dia do casamento, segundo as más lÃnguas, desaparecera sem dar explicações. DaÃ, talvez, sua fama. Sabia que ele não tinha namorada e, à s vezes, achava-o insistente demais comigo. Convidara-me pra sair à noite, mas a tesão não era muito grande e minha preguiça sempre vencera os convites do rapaz. Muita mão-de-obra! Pensava.
Marquinhos estava de short, camisa e tênis, como todo mundo. Aproximei-me por trás e coloquei as mãos sobre seus olhos, perguntando-lhe quem eu era.
Ele demorou um pouco a me reconhecer e, quando o fez, quase derrubou a lata de cerveja que empunhava.
_ Uai! Você por aqui? Que idéia, Beatriz!
_ Engana-se, meu caro folião! — Disse, beijando-lhe o rosto — Não passo de uma DIANA que se perdeu. Como vi um Galo enorme na minha frente, pensei que era o meu povo.
Rimos bastante. Marquinhos me perguntou como ia no trabalho. Em pleno Carnaval, convenhamos, tal coisa somente poderia mesmo reforçar sua reputação! Resolvi provocá-lo.
_ Ah! Marquinhos! Não estou a trabalho, mas a jogo — Disse com ironia, repetindo a frase de um conto famoso - Que é que acha? Seguimos o bloco ou vamos para um bar discutir a última teoria sobre a sedução mediante fraude?
A DIANA ressurgiu fortemente em mim, pesquisando a timidez do rapaz. Será que ele conhece mesmo as mulheres? E se me desse vontade de tirar as dúvidas? Afinal, sou mais velha do que ele uns dez anos. Minha experiência não era tão pequena assim, embora não quisesse dar a mÃnima bandeira no trabalho.
Lembrei-me da intensa bolinação defronte dos Correios e um arrepio me percorreu o corpo. Não! Com Marquinhos, o jogo teria que ser claro e aberto. Nada de anonimatos! Ele era transparente demais!
_ Por que não almoçamos? Já são duas da tarde! - Propôs Marcos, com naturalidade.
TaÃ! Numa dessa eu poderia embarcar. Queria saber os motivos ocultos de tantas visitas à Biblioteca. O cansaço, o calor e a recente bolinação me provocavam uma fome irresistÃvel. Escolhemos um restaurante razoável, à beira mar.
(continua)
10 de outubro de 2007, Ã s 5:21h
Belo Blog! Gostei muito do conto erótico de Perrusi Pai. Acho apenas que a “bundinha” não soou bem. Deve ter outro nome mais apropriado. Esse é problema de um conto erótico, o de encontrar os nomes certos. Também não sei se é frescura minha.
12 de outubro de 2007, Ã s 4:29h
Belo conto, Perrusi Pai!
Acho que num conto erótica, qualquer palavra cai bem. Paus e bundas, tremei! Ou mexei!
Um abraço,
Dimas Lins
12 de outubro de 2007, Ã s 12:53h
Reverendo, vi seu comentário… que bom que você voltou para colocar ordem na nova casa. Você leu o conto erótico de Perrusi Pai?! Traseiro-bundinha-rabinho-peitinhos-pauzinho… quanta safadeza, hein?! Gostei do conto, mas fiquei com o comentário de Marco Pimenta na cabeça, deve ser difÃcil mesmo a escolha das palavras para um conto erótico. Talvez, os diminutivos (nem tanto as palavras em si), tenham dado um tom levemente pudico ao texto, não sei… embora, e ao mesmo tempo, veja neles também uma vontade clara e contextualizada, bem sucedida a meu ver, de imprimir vulgaridade e pimenta à personagem. Esperemos pela sobremesa com Marquinhos.
12 de outubro de 2007, Ã s 19:27h
Gostei do desfecho! Beijos.