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Cuba Libre: impressões de uma viagem VII

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HAVANA -31-07-1983, 9 hs. da manhã

Hoje, pela manhã, fomos à praia, em excursão guiada. Água limpa e quente, mas não achei grande coisa. O passeio valeu pelos lugares por que passamos. Inúmeros clubes para meninos e meninas – os Pioneiros – espécie de escoteiros cubanos, que neles passam parte das férias, trabalhando e aprendendo, aprendendo e aprendendo. Na verdade, são lugares bem cuidados, onde os adolescentes ficam até 15 dias, gratuitamente, com alojamento, comida, diversão e, seguramente, é claro, doutrinação.

Passamos, também, por inúmeros blocos de prédios de apartamentos, construídos pelas “brigadas” de construção, isto é, voluntários que visaram resolver o problema habitacional da população favelada da periferia de Havana. Os prédios são modernos e, aparentemente, bem construídos. Como sempre, os coletivos decidem quem é quem para morar nas novas construções.

Não há mais favelas em Havana!

A praia dos Pinos, como a maioria das praias de Havana, era privatizada nos tempos de Batista, o Ogre. A “Revolución”, é claro, acabou com tais mordomias. Os cubanos se vestem mal, com tecidos antigos e sem muito gosto. Raramente se vê um traje de banho mais moderno. Vestem-se mal, é verdade, mas todos se vestem com decência e isso é o que parece mais importante. Na praia, muita cerveja e a polícia por perto vigiando. Não há a bagunça brasileira, todos se divertem e deixam os outros se divertirem. Ainda existem, nas areias, vestígios de casamatas, de onde os cubanos pensavam repelir qualquer invasão ianque pelo litoral.

Descobri outra coisa que estava dentro da minha cabeça, desde a minha chegada. Em Cuba, além da classe dominante, também, “no hay perros”. Perguntei ao guia o motivo de tal ausência e ele me falou que era por causa da raiva. Assim, todos os cachorros vadios eram recolhidos a um depósito, para virar sabão, segundo creio. Para mim, é estranho observar o fato porque, no Recife, por exemplo, há mais cachorros do que gente nas ruas. Pensei comigo próprio se não houvera alguma campanha anti-rábica nos moldes albaneses, para quem e por mera propaganda, os cachorros seriam “animais burgueses”!

Penso que esta será a última viagem que faço a um país latino-americano. Ou Europa, ou nada! Não passo, como os “perros”, de um animal velho, barrigudo e aburguesado! E raivoso, além de tudo!

Um episódio constrangedor, creio, é digno de nota. Existe uma mulher, aqui no Hotel, que vive o tempo todo perambulando pelo hall, segurando uma criança pela mão. Cumprimentei-a certa vez. A partir de então, ela começou a me fazer perguntas desencontradas. Ontem, falando baixinho para mim, perguntou se eu podia lhe comprar uma tesoura de unhas na loja do Hotel, exclusiva para estrangeiros.

Estranhando o pedido, disse-lhe que a loja somente vendia em dólares. Para me ver livre da mulher, disse-lhe que daria a minha própria tesoura de presente, dispondo-me a subir ao meu quarto para buscar tal objeto. Ela, então, perguntou se eu estava sozinho, afirmando-me que estava divorciada há pouco tempo e que iria ao meu quarto às l8 horas buscar a tesoura. Saí antes para um passeio pelas cercanias do hotel.

Hoje, encontro-me de novo com a tal mulher e tento ser um pouco mais seco e formal. Quando comecei a escrever no quarto, tocam à porta e é a chata da cubana. Digo-lhe, secamente, que estou ocupado “a trabajar” ¾ palavra mágica, em Cuba, e ela vai embora. Pablo, colega mexicano, me afirma que, também, foi abordado pela mesma mulher, mas não acha que ela seja prostituta e, sim, apenas um pouco biruta!

HAVANA, 01-08-1983

O brasileiro-cubano me telefonou, dizendo-me que marcara encontro com o Diretor da Biblioteca Nacional, às 11 horas da terça-feira. Que chato! Não tenho nada a dizer ao pedante do Riveran. Enfim, veremos.

Antes, fui ao Hotel Nacional fazer algumas compras. Hotel de luxo, equivalente a um Copacabana Palace, sem os babados do similar carioca. Estranhamente, acho mais fácil me locomover sozinho sem o peso da companhia dos colegas mexicanos que somente sabem conversar sobre a Revolución. Tomo a Guá-Guá (pronuncia-se, quase, “Uauá”), ônibus 22 e lá vou eu. O chofer se esquece e não me avisa da parada, perto do hotel, como prometera. Tenho que voltar e me faço entender perfeitamente.

Compro uma caixa de charutos “Romeo y Julieta”, para João Alexandre, uma caixa de ‘Punch”, um cinzeiro de mármore e mais um disco. As bolsas de couro são feias, mal feitas e miseravelmente caras. As roupas são horríveis. Espero comprar algo para Marília e Maud, em Lima, pois passarei algumas horas por lá, e onde há um artesanato mais interessante.

Na saída do Hotel Nacional, outro cubano, um jovem negro, me aborda querendo trocar dólares. Respondo que “no entiendo”. Ele me pergunta de que país eu sou. “Muy lejo”, respondo e atravesso a rua, livrando-me do “marginal” que não mais insiste no negócio.

O calor continua sufocante. Compro jornais que são, aliás, umas boas porcarias. O melhor noticiário está na rádio e na TV, mas eu morreria de tédio com tanta patriotada, embora reconheça que se Cuba não se cuida, a vaca vai pro brejo rapidamente. Minha irritação diminui bastante quando estou sozinho. Sinto-me mais leve e mais paciente para esperar quarta-feira quando “me voy”, pra nunca mais voltar, “espero yo”…

Na “tienda” do Hotel Nacional, uma mocinha me abordou, querendo saber o que significava o meu crachá do Congresso da ADHILAC. A balconista, mais velha e parecendo a chefe, deu-lhe um carão daqueles. A moça, então, me perguntou se me “molestava”. Claro que não e respondi um pouco alto e mais enfaticamente às suas perguntas. Na hora de pagar, a “compañera-jefe” me tratou um pouco rudemente e quase lhe prego um sermão revolucionário, mas preferi achar graça.

Aqui, no meu hotel, aliás, ocorreu um fato semelhante, quando a camareira, também jovem, começou a falar comigo. Sua chefe, imediatamente, se interpôs, respondendo-me – desta vez, gentilmente – mas intimidando a mocinha. São, na verdade, pequenos episódios que não sei como interpretar pois, no geral, todos se tratam muito bem e, aos turistas, melhor ainda. Nas ruas, por exemplo, jamais alguém deixou de me dar informações, em geral, corretas.

Tentei entender a “cultura” urbana daqui, embora o cubano-brasileiro, ou vice-versa, tenha me falado que há um grande problema com os jovens! Não me disse qual, nem perguntei. Será uma certa curiosidade pelo exterior ou, ainda, pela “modernidade”, seja lá o que isso signifique, que assola a juventude cubana? Ou, eles já estão cheios de tanta disciplina e tantas patriotadas? De qualquer modo, são pequenos incômodos que não significam muito, pelo menos no momento atual, dentro do conjunto maior das coisas. “Loco para volver a Candeias”!

HAVANA, 01-08-l983 – à tarde

O almoço, como sempre, foi ruim neste hotel, já em decadência nos tempos pré-revolucionários. Depois, uma siesta que ninguém é de ferro. Tenho andado muito a pé o que, apesar do cansaço, tem-me feito bem. Creio que devo ter diminuído de peso e vou fazer um esforço sério em termos de exercícios e de caminhadas.

Sonho coisas estranhas, em geral ligadas a prisão, inibição, falta de ar e liberdade. Acho que Cuba começa a fazer efeitos negativos na minha cabeça.

HAVANA, 01-08-1983 – 20 hs.

O restaurante do Hotel Sevilha se prepara para servir o jantar coletivo de sempre. Falta apenas um dia para me libertar da armadilha cubana e voltar para Candeias de onde, aliás, nunca deveria ter saído. Não voltei mais a ver os mexicanos.

HAVANA, 02-08-1983

Hoje, pela manhã, fui à Biblioteca Nacional para uma entrevista com o Dr. Júlio Le Riverand Brusone, Diretor da dita cuja.

O prédio é magnífico, bem organizado e limpo. A princípio, achei chata a idéia da visita, marcada pelo brasileiro-cubano, Hélio Dutra. Havia encontrado o Dr. Júlio, em Bayamo e, apesar de achá-lo um velho pedante, havia lhe entregue um exemplar de “A República das Usinas”, de ilustre autor brasileiro, como doação à Biblioteca Nacional de Cuba.

O meu problema, acho, é falar demais e antes do tempo. Referi-me, de passagem, a Hélio Dutra de que estava encontrando dificuldades em comprar o livro “El Ingenio”, em três volumes, o que era uma grande mentira, pois, ainda não tinha visitado nenhuma livraria. Hélio, sempre amável e prestativo, propôs-me de imediato ir à Biblioteca onde, certamente, o seu amigo Júlio me faria tal doação.

Tudo bem! Seria uma hora apenas de constrangimento, pois, não tinha nada a dizer ao tal Júlio. Enganei-me novamente. Desculpando-se porque conversara muito pouco comigo em Bayamo – na verdade, mal nos cumprimentamos – Júlio botou para falar sobre o Brasil e, de repente, parecíamos velhos amigos.

Como é historiador da Economia, cedo nos entendemos e o papo foi super interessante. Trata-se de um cara terrivelmente irônico, de mais de 70 anos e um dos maiores intelectuais de Cuba e, segundo o seu Curriculum, seguramente, da América Latina. Contou mil histórias de sua vida de revolucionário e de suas andanças pelo mundo afora.

Além de “El Ingenio”, ganhei uma “História Económica de Cuba”, de autoria do próprio Júlio. De passagem, notei que “A República das Usinas” estava sobre o seu birô, segundo ele, esperando sua leitura para, depois, mandar catalogá-lo…Ah! “Si la jeunesse savait…”

Depois da visita à Biblioteca Nacional, almocei na casa de Hélio Dutra. Apartamento antigo de dois quartos, modesto, quase ascético, embora bastante ventilado e perto do famoso Malecón, calçadão-muralha, defronte do mar de rochedos que se segue ao porto. Comida simples, sopa de feijão, seguida de frango assado com uma salada em que identifiquei macarrão cortado, presunto, ervilha etc. Tudo regado a um bom vinho romeno.

Achei o casal muito simpático, a mulher muito mais jovem do que Hélio, porém muito gozadora. Hélio fala exageradamente, embora deixe, também, o outro falar, se quiser e quando puder. No entanto, pode-se ficar perfeitamente calado que ele dá conta do recado. Fala, aliás, sobre tudo e, em geral, com uma certa propriedade, especialmente sobre literatura.

Discutimos música, cultura em geral, e literatura, especialmente Guimarães Rosa, a quem conheceu, em 1930, quando aquele era Capitão-Médico da Brigada Mineira e Hélio, propagandista de produtos farmacêuticos.

É claro que todo o papo foi permeado por referências à sacrossanta “Revolución” e me pareceu, pelas suas recordações sobre o Brasil, que Hélio tivera qualquer ligação com o PC. Já se “considerava” socialista antes da Revolução e preferiu viver a experiência cubana do que voltar ao Brasil. Em suma, uma tarde agradável, com um casal culto, simpático e interessado.

Mas, as horas passam e, agora, já são seis horas da noite ¾ última, felizmente. Minha visita a Cuba se termina. E o meu Relatório ,idem.

HAVANA, 02-08-1983 -à noite

Inúmeros detalhes escaparam a este Relatório. Alguns engraçados, outros sérios. O primeiro deles se refere à sessão inaugural do Congresso, em Bayamo, quando houve uma homenagem a Céspedes, “padre de la Pátria”, uma espécie de José Bonifácio cubano. Um ritual meio provinciano e quase militarizado, na principal praça de Bayamo, em que se misturaram colocação de flores ao pé da estátua do cara, um coral feminino cantando qualquer hino cubano, banda de música e discursos.

As pessoas importantes se dividiram em dois grupos ¾ pois, havia duas estátuas, em lugares opostos da praça! ¾ e, partindo do meio da praça, cada grupo, em passos militares, se dirigiu para a sua estátua. Havia muita gente assistindo à cerimônia, debaixo de um sol aterrorizante. Não entendi muito bem a mecânica da coisa, mas tratei de me abrigar debaixo de uma árvore, demonstrando uma certa covardia, creio eu…

Depois, fomos para o Centro Municipal, num grande auditório, onde, novamente…Oh! Como os cubanos gostam de discursos…Discurso pra cá, discurso pra lá, tentei sentar-me no meio do auditório, mas não me deixaram fazê-lo. Insistiram para que ocupasse as primeiras filas, com os convidados de honra, e, lá, as crianças nos enchiam de rosas, como na chegada a Holguin.

A sessão foi inaugurada por um grupo de adolescentes que gritavam “Vivas!” a não sei o que e a não sei a quem. Uma menina, então, leu um discurso de uma maneira impressionante. Quase histérica – lembrando-me, um pouco, os Hari-Crismas -, sem olhar para o auditório, aos gritos, com uma voz esganiçada, terminando por dar “Vivas!”, seguidos de “Vivas!” pelo auditório, eu, inclusive, é claro, que, no primeiro dia, não iria me meter à besta!

Depois, seguiu-se a recitação de um poema por um garoto de uns 12 anos de idade, que me lembrou muito o episódio desastrado de que fui vítima na “Escola Dominical”. Bem vestidinho, o garoto começou a recitar o seu poema e eu, de minha parte, comecei a apostar que ele esqueceria alguns versos, como ocorrera comigo na Igreja Batista.

Puxa! Dito e feito! O coitadinho olhava aterrorizado para algum lugar – possivelmente, para a sua professora – e começava de novo. As estrofes sempre terminavam com o verso: “Ché, comandante, amigo” e, por aí, deduzi que se tratava de um poema em homenagem a Guevara. Contudo, ao contrário do meu caso, o garoto conseguiu terminar seu poema e batemos muitas palmas pelo seu esforço. Depois, duas meninas cantaram, acompanhadas ao violão e, finalmente, um conjunto de garotos e de garotas cantaram uma rumba.

Terminado o show dos meninos, começou o Congresso com informações gerais e os conformes de sempre.

Além da visita aos CDRs, houve mais duas festas fora do Hotel, em Bayamo.

A primeira transcorreu na “Casa de Amistad”. Achei um saco, exceto pela audição de um velho conjunto de rumbas, chamado “Los Piñeros”, fundado a cerca de 50 anos e que tocava as rumbas mais incríveis. Revi o mesmo conjunto, depois, no hotel, mas não consegui encontrar seus discos no comércio, como já me referi, aliás.

Entretanto, o destaque da noite foram “Las Duas Hermanas”, não sei das quantas, que infernizaram a noite da gente, embora eu e Iglésias nos ríssemos bastante. Entre as canções, que elas guinchavam, uma, certamente, ficará para toda a eternidade. Chamava-se “Las Perlas de Tu Boca” e eu fiquei a imaginar o que seriam tais pérolas, até dar um grito ao descobrir que “las perlas de tu boca” nada mais eram do que os banais dentes de uma boca qualquer!

As garçonetes entupiam, literalmente, as mesas de comida que ninguém comia porque, justamente, havíamos acabado de jantar, falha provável do excelente planejamento cubano! Contudo, exceto eu e Iglésias, todos bebiam o tal “mojito”, uma misturada de rum branco com hortelã e não sei mais o quê. Famosa bebida cubana. Aliás, famosíssima!

Como estávamos cansados da festa, resolvemos ir a pé para o hotel, que ficava a cerca de uns 500 metros do local. Os cubanos, nossos guias, não permitiram.

Primeiro, estranharam que quiséssemos caminhar sozinhos à noite. Depois, ofereceram carros para nos levar de volta, o que, gentilmente, recusamos. Finalmente, pedindo que esperássemos um pouco, chamaram um carro que seguia devagar atrás da gente!

Perguntei, então, se era “peligroso” andar a pé de noite, ao que me responderam que “en Cuba, nada es peligroso”. E, contudo, lá estava o carro devagar atrás do pessoal. Paramos, então, e, de saco cheio, putos da vida, entramos no carro. Somente em Havana, vim a saber que Bayamo está a um passo de Guantanamo, como já me referi, e os cubanos bem que tinham  razão de ficar em nossa “cola”.

A outra festa ocorreu no dia em que Ribeiro foi hospitalizado por causa de uma caganeira. Foi no Clube Municipal, quase um sítio, em que, depois de uma sessão de cinema na cidade, a que não compareci, teríamos um jantar festivo.

Cheguei mais cedo do que os outros e fiquei, por cerca de uma hora, conversando com alguns cubanos sobre praticamente tudo. Foi durante tal conversa que eu soube que os negros não se distinguiam na natação porque tinham os ossos mais leves do que os brancos!

Cientificamente provado (sic), segundo o simpático “compañero” que era fisicultor. Eis aí como se aprendem as coisas…

Havia uma enorme mesa coberta de comida. Peixes, como enormes ciobas, frutas, doces, rapaduras, legumes etc. etc. etc. Nunca vi tanta comida na minha vida. Era meia noite, estava morto de fome quando, finalmente, chegam os outros congressistas – umas cem pessoas – e a comida desaparece como num passe de mágica. O detalhe curioso é que somente havia garfos e o jeito era pegar os pedaços de carne com as mãos e cortá-los com “las perlas de nuestras bocas”. A comida era, porém, gordurosa e excessivamente salgada, como sempre e, com tanta comida, acabei ficando ainda com fome. Um dia, o enfarte ainda vai ser uma doença popular em Cuba.

Na beira da piscina, serviam bebidas, de que me abstive, como sempre até aqui. Do outro lado, conjuntos de música se alternavam e, novamente, ouvimos os guinchos de “Las Duas Hermanas”. Não agüentei. Já estava um pouco entediado, de qualquer modo, da exuberância  da festa e soubera, instantes atrás, que Ribeiro havia sido hospitalizado. Aproveitei o momento em que “Las Hermanas” cantavam de novo “Las Perlas de tu Boca” e disse, simplesmente, ao meu guia: “Yo me voy”. E fui, acompanhado de Novaes.

O centro de Havana é uma graça. Além de prédios antigos, embora bem conservados, a maioria dos automóveis não passa de um conjunto de latas velhas da década de 50-60. “Rabos de Peixe” enormes, alguns caindo aos pedaços, outros bem conservados, dignos de museus. Mas, o desfile nas ruas torna-se encantador, como uma volta ao passado distante.

Ao lado das “bagnoles”, mas em minoria, segundo creio, há uma frota de Fiats, comprada na Argentina e de Ladas, vindos da Rússia. Os ônibus são modernos, comprados na Hungria e montados aqui mesmo. Andei em alguns deles, pois os táxis são caros, poucos e sempre lotados. Quando estão livres, pelo menos muitos dos que pude abordar, só querem levar a gente para lugares que fiquem no caminho deles, o que me lembra a esculhambação do Rio e de São Paulo, onde ocorrem fatos de tal natureza.

Havana é tão limpa, silenciosa e sem violência como Bayamo, Santiago ou outro qualquer lugar. O banditismo acabou, embora ainda exista uma certa marginália. Enfim, enquanto o homem for homem…

Certa noite, estava fazendo a volta ao quarteirão do hotel, tentando ajudar a digestão, quando ouço o barulho de uma correria. Olho para trás e, instintivamente, grudo na parede de um edifício, tentando me abaixar. São três negros que vêm numa corrida desabalada. De noite, mais ou menos escuro na rua, esperei o pior; tiroteio com a polícia que, certamente, vinha no encalço de tais marginais.

Contudo, não há polícia nas ruas de Havana. Os três negros correm em direção de uma “guá-guá” que estacionara logo adiante. Na verdade, não passavam de três honestos trabalhadores que não queriam perder a condução. Mas, que susto!

Somente, agora, compreendi o acompanhamento policial que tivemos em Bayamo; batedores de motocicletas, carro e ambulância. Os cubanos, me parece, têm um certo medo de imprevistos, de trânsito e de saúde. Quanto ao trânsito, nada demais porque é pequeno para tanta preocupação. No entanto, quanto à saúde, bem que eles têm razão, tal a quantidade de congressistas que tiveram que ser atendidos. Além de uma boa quantidade de velhinhos, o calor e a comida nocautearam muita gente, além do que eles gostam de um internamentozinho. Felicito-me por não ter tido nem sequer uma leve dor de cabeça!

Segundo creio, eles resolveram, também, o eterno problema do desemprego entre os músicos ou daqueles que pensam que só podem fazer música na vida. Todos os hotéis, restaurantes, bares, festas, têm música ao vivo de qualidade, aliás, tão duvidosa quanto diversificada. Às vezes, de boa qualidade, como “Los Piñeros”. Em Bayamo, a certa altura de um jantar, sentou-se ao piano uma velhinha simpática que tocava tudo o que pedíamos, inclusive música brasileira. Os trios, no entanto, eram de matar. Guatanamera e El Relógio foram as músicas que mais ouvi

Encontrei-me com o primeiro russo em Camaguei, quando paramos para um lanche, na viagem para Havana. Aqui, depois da gente, chegou uma delegação russa, também. Andam juntos, discretos como, aliás, todo o mundo no hotel. Justiça se faça: o mesmo hotel serve para historiadores, russos, trabalhadores, militares, funcionários etc. Assisti uma ascensorista negar a um coronel lugar no elevador, pois, segundo ela, o troço já estava lotado e ninguém se mexeu para dar lugar ao oficial.

Todos são iguais, perante os elevadores, deve rezar a Constituição Cubana!

E é só, meu caro Artur. Do seu pai amantíssimo.

Torcedor

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