Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Cuba Libre: impressões de uma viagem VI

Sem Comentários

HAVANA – 30-07-1983

Esta viagem tem-me trazido muitas surpresas, algumas delas desagradáveis. Agora mesmo, estou vivendo uma delas. Um professor mexicano me convidou para ir ao México e eu aceitei.

Segundo acertamos, em Bayamo, os cubanos pagariam nossa estadia em Havana até a próxima conexão para Lima que coincidiria com uma das conexões para o México, isto é, no dia 03 de agosto, uma quarta-feira. Aproveitaríamos, pois, a sexta-feira, chegada em Havana, até a quarta, embora os mexicanos pudessem viajar logo na segunda.

Entretanto, foram tantas as pessoas com que tive de falar, tantas as dúvidas e contradições sobre quem pagaria, realmente, a minha estadia até a quarta-feira, tantas as dificuldades de locomoção, falta de informação, vida caríssima, que resolvi viajar logo, hoje pela manhã. Como os cubanos se recusaram a pagar o trecho para o México, mesmo que a conexão para o Brasil só exista na próxima quarta-feira, dia 03 de Agosto, tive que desembolsar 108 dólares, a contragosto. Ora, a Varig fizera os mesmos cálculos, aí no Brasil, afirmando-me que eu somente pagaria 50 dólares a mais. Parece que a matemática não é a mesma nos dois países!

Ocorre que, ontem, fui falar com o amigo mexicano para definir de vez minha visita ao México. Soube, então, que o sacripanta já havia se mandado. Fico, então, sem saber o que fazer, depois de tanto trabalho junto aos burocratas do turismo cubano.

Tive que desfazer tudo. Ao mesmo tempo em que tentava desmarcar as passagens, chamaram-me ao Hotel Inglaterra, espécie de central burocrática para as delegações, e outra jóia arquitetônica dos tempos de Batista. Informaram-me que deveria pagar mais 87 dólares porque a Aviacción Cubana havia errado nos cálculos em relação ao trecho para o México. De logo, notei que eles não compreendiam que a passagem deve ser calculada em termos de milhas percorridas e, ainda por cima, queriam que, no regresso, eu fosse de Manaus ao Rio e do Rio ao Recife, sem, é claro, a mínima necessidade.

Desta vez, não me importei pois, como lhes disse, desistira de passar pelo México. Afinal de contas, o outro brasileiro, que também não pudera pegar a conexão para Lima à tempo, tivera sua ida ao México paga pelos cubanos. Na verdade, eles fizeram uma diferenciação curiosa, tipicamente burocrática. Ribeiro, por exemplo, voltara, via México, porque não havia conexão para Lima, na data desejada por ele. Mas, o meu caso era diferente porque fora eu próprio que solicitara, com antecedência, a mesma coisa. Não entendi, é claro!

Eles preferem pagar mais, mantendo-me, aqui, no hotel, a 30 dólares a diária, do que pagar menos pela conexão, via México. Não adianta argumentar nem discutir. O custo pouco importa; o que vale é a intenção e, portanto, o argumento é ideológico e não econômico. Mas, enfim, a coisa terminou sendo boa para mim.

Gentilmente, então, levaram-me de novo à Aviacción Cubana e, em 10 minutos, resolvi a questão. Devolveram-me os dólares já pagos ¾ 108, ao todo ¾ e marcaram a passagem para a próxima quarta-feira, devendo esperar 6 horas em Lima para fazer a conexão para o Rio. Ainda tentei a volta por Manaus, via Panamá, mas a Varig passa por ali na segunda-feira e a conexão Havana-Panamá somente existe na terça, conformando-me, pois, com o trecho mais longo e mais cansativo.

Fico mais sossegado. O México estava me parecendo uma aventura meio chata e no escuro, além de dispendiosa.

Agora, às duas da tarde, veio me visitar o brasileiro Hélio Dutra, indicado por Heloísa e Zé-Augusto e, para quem, havia trazido um livro. Pensei que fosse um desses exilados que não quiseram voltar depois da anistia. Qual nada, outra surpresa!

Trata-se de um senhor de 75 anos de idade, muito bem conservado, que está, aqui, há 40 anos, naturalizando-se cubano. Chegou, pois, antes da Revolución para montar uma filial de um laboratório e foi ficando até que, depois de Fidel, aderiu ao regime, desde que já se confessava socialista desde jovem. Em suma, mais um discurso sobre “la Revolución”, aliás, meio chato. Perguntou-me o que queria ver porque, aposentado, teria todo o tempo para me mostrar as coisas.

Não, não e não! Eu não quero visitar usinas de açúcar, nem nada, somente porque escrevi um livro sobre usinas de açúcar. Aliás, justamente por isso! Quase lhe dizia que o que mais desejava era, mesmo, dar o fora e voltar para Candeias!

Prometeu-me, assim mesmo, me trazer o livro “El Ingênio”, que era a única coisa que eu gostaria mesmo de levar. Como é tradutor e amigo do diretor da Biblioteca Nacional, um dos maiores intelectuais cubanos que, em Bayamo, achara prá lá de chato e pedante, poderia conseguir o livro facilmente.

Virá à noite para passearmos. Não me convida para jantar em sua casa porque sua mulher está doente ¾ deve ser outra velhinha! ¾ o que acho bastante normal, desde que, em Cuba, não existem mais empregadas domésticas. Como afirmara a tal garçonete, a escravidão já terminou por aqui. Veremos! Mas acho que dispensarei os bons serviços do velhinho. Nem carro o homem tem! Ah, esse meu espírito burguês!

Na loja da Aviacción Cubana, vi, na prática, como a burocracia emperra a vida da gente. Demorou, mas finalmente apareceu o meu bilhete nas mãos não sei de quem ¾ quando chegara, haviam-no confiscado ¾ e, se não consigo convencer o velhinho que me atendia sobre o cálculo dos dólares, feito no Brasil, pelo menos consegui, através do exame de opções de regresso, me fixar com mais tranqüilidade numa delas.

Penso, no entanto, que o problema é mais de ordem emocional. O funcionário me afirma que há tais opções, mas não me deixa examiná-las ou pensa que não há necessidade de fazê-lo por conta própria, pois sua palavra é inquestionável e suficiente. Eles sempre dizem a verdade e, nisso, acredito piamente, pois não via nenhum interesse deles em me enganar. O que eles não consideram, porém, é que vivo num país onde a insegurança é a norma e em que todos querem enganar todo mundo, inclusive a si mesmos. Além, é claro, de minha inata rebeldia em aceitar coisas de segunda mão…

DimasLins

Deixe um comentário