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Cuba Libre: impressões de uma viagem V

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Somente depois, já em Havana, compreendi alguns cuidados que, antes, me espantavam. A “vigilância” a que fomos submetidos, em Bayamo, teria pelo menos uma boa justificativa desde que a Província de Gramma é vizinha de Guantanamo, base americana e, portanto, zona crítica para os cubanos. A ambulância e os carros de polícia, que nos escoltavam, foram úteis em diversas ocasiões, pois não houve um grupo em que alguém não tivesse se sentido mal. Calor sufocante, comida gordurosíssima e salgada, e alguns velhinhos caindo aos pedaços, fazendo parte das delegações.

Parece, na verdade, que os PCs adoram História e têm muitos historiadores em seus quadros dirigentes!

Chegamos, enfim, a Havana, depois da meia noite e ficamos hospedados no Hotel Sevilha, ainda do tempo de Batista. Segundo os cubanos, um Hotel reformado mas, para mim, uma boa porcaria de Hotel, embora o décor dos anos de 50 tivesse me fascinado.

O Hotel estava lotadíssimo, com um péssimo serviço, comida prato único, refeições coletivas por grupos, embora não faltasse uma rosa sobre a mesa. Alguns conjuntos musicais se revezam durante as refeições, fato comum em todos os restaurantes cubanos em que estive. Assim, fiz minhas refeições assistindo a trios, que tocavam boleros, a senhoras que tocavam piano, a cantores e cantoras de qualidade variada. Tal constante somente se explica, a meu ver, pelo desejo de não deixar os músicos e cantores sem emprego, embora nem todos me parecessem merecer tal distinção. Cada sessão musical durava cerca de meia hora, substituída, imediatamente, por outra.

Mas, há conjuntos fantásticos, como Los Piñeros, ainda do tempo de Batista, com uns quase velhinhos tocando rumbas fascinantes. Infelizmente, não encontrei gravações para comprar, desde que esgotadas.

A pontualidade do serviço de mesa, também, é rigorosa; a mesma comida, na mesma hora, tipo comeu-comeu, não-comeu-não-comeu. Paciência! As garçonetes não são mais escavas, como reclamou uma delas quando, certa manhã, me atrasei um pouco para o café. Preconceito à parte, uma das mulheres mais feias que já vi.

Recusou-se, simplesmente, a me servir, embora outra garçonete, mais amável ¾ ou se mancando de que se tratava de um estrangeiro, convidado do Governo ¾ tenha me pedido desculpas, servindo-me, enfim, o café da manhã.

De certa maneira, o episódio foi engraçado, embora, a princípio, tivesse ficado um pouco espantado em ouvir a primeira garçonete gritar em voz alta que “o tempo dos escravos já havia terminado”, entre outros impropérios. Mas, em termos gerais, fomos bem servidos e, sempre, com amabilidade, registrando, inclusive, o fato de que a “ex-escrava” não sofreu nenhuma punição da parte de ninguém, exceto um ar desaprovador de uma de suas colegas, por sinal, branca.

Fiquei num quarto bem envelhecido, embora confortável, aos cuidados de funcionários que nos prestavam todas e nenhuma informação ao mesmo tempo, o que, freqüentemente, provocava em todas as delegações uma certa confusão, muitas vezes, atrasando as programações, ora as oficiais ora as turísticas.

Assim, parece que os cubanos não gostam de dar informações; assim, parece que os cubanos gostam de dar informações! Na verdade, é muita gente para cuidar de tudo e, por vezes, há uma certa balbúrdia entre os funcionários, cada um passando a bola para os outros. Mas, com uma boa dose de humor e de boa vontade, o problema é superado porque os cubanos são, também, muito jocosos e alegres.  Novaes atribuía a existência de tantos funcionários à necessidade de empregar todo o mundo, sendo o Estado o patrão-mor.

Não sei! Talvez, falta, mesmo, de organização ou racionalidade nos serviços.

A única sensação meio ruim, pelo menos para mim, era a falta de meus documentos, o que me dava a sensação de estar nu e ficar, inteiramente, “na mão deles”. Creio, no entanto, que eles fazem isso por uma questão de “racionalidade” burocrática e não para nos pressionar, pois não haveria necessidade disso. Parece mais fácil resolver as questões em bloco do que uma a uma, como marcar passagens, preencher fichas, reunir os grupos etc. Somente no aeroporto, segundo me explicaram, receberia o meu bilhete de avião e o passaporte de volta. De resto, poderia fazer o que bem quisesse, como de fato ocorreu.

Havana tem um centro histórico, “La Habana Vieja”, muito bonito e é só. As coisas são caras e difíceis, os poucos táxis estão sempre lotados, os bares cheios, as poucas lojas com muita gente para comprar o pouco que existe. É necessário compreender, um pouco, a situação de uma economia socialista que partiu de um mundo de escassez, em que tudo era reservado para uma pequena minoria. Ignorando-se tal fato, a crítica não somente não terá sentido, como ficará apenas no terreno das aparências.

Todos os cubanos possuem um “libreto”, com o qual obtém provisões básicas, segundo a necessidade de cada um, especialmente em termos de comida e vestuário. Além do “libreto”, há o “mercado paralelo”, em que os preços são muito mais altos. Como, em geral, os salários nominais são muito bons – o salário mínimo é cerca de três vezes maior do que o brasileiro – sobra dinheiro nas mãos do consumidor médio. Ocorre que a produção é, ainda, quase toda voltada para satisfazer as necessidades básicas da população, havendo, portanto, poucos bens supérfluos à venda que são disputados, é claro, por muita gente o que faria, mesmo numa economia pura de mercado, subir os seus preços.

Há, portanto, neste aspecto, uma demanda muito superior à oferta ou, em outros termos, uma demanda reprimida artificialmente. Numa economia capitalista, o capital privado investiria, imediatamente, em tal espaço e, em pouco tempo, a oferta tenderia a se equilibrar com a demanda. No entanto, em troca, o setor encarregado de produzir a “cesta básica” diminuiria e faltariam, na mesma proporção, alimentos, casas, roupas etc. Aqui, pois, o Estado intervém e impede a fabricação, ou importação, de certos bens ou, então, inibe o seu consumo, elevando, artificialmente, os preços.

A comida, por exemplo, é barata, se comprada dentro do “libreto” e na quantidade ali especificada. Mas, se vamos a um restaurante, a mesma comida se torna caríssima, mesmo ignorando o preço do serviço prestado.

Dentro do “libreto”, cada cubano pode comprar 4 ou 5 maços de cigarros, por semana ¾ aliás, fortes e ruins ¾ por 4 centavos de peso (um peso vale 0,85 centavos do dólar americano). Mas, se se comprar na “tienda” do mercado paralelo, o mesmo maço de cigarros custará 1,8 pesos, isto é, quase cinco vezes mais caro.

Outro exemplo pode ser citado em relação às organizações de massa – ou coletivos – que determinam quem pode ou não pode comprar um automóvel, por exemplo. Assim, mesmo que um cara tenha o dinheiro, discute-se a necessidade, ou prioridade, de uns sobre os outros e, somente, então, se o cara é aprovado, poderá comprar o carro ou, pelo menos, ficar na fila, esperando sua vez.

Encontrei um engenheiro, com salário bastante alto, que me confessou que juntara dinheiro, inclusive por não ter em que gastar, mas não podia ainda comprar um carro por não ter sido classificado no rol dos “prioritários”.

Os discos, noutro exemplo, são caros, custando os mais populares e os clássicos cerca de 4 pesos e os mais sofisticados, cerca de 9 pesos. Um de Sílvio Rodrigues, por exemplo, me custou 9 pesos, por que são considerados artigos de luxo.

Em suma, há um critério político e não econômico – do ponto de vista, é claro, de uma economia de mercado capitalista – que determina o preço e a sua variação de uma mesma mercadoria, jogando pros céus, ou pros infernos, a teoria do valor-trabalho, salvo engano de minha parte.

Por outro lado, gasta-se muito dinheiro com bebidas e com férias nos inúmeros hotéis que existem em Cuba, especialmente construídos para os trabalhadores. Quando não são coletivas, as férias podem ser gozadas, facilmente, pelo interior do país, individualmente ou em família. Viaja-se pouco ao estrangeiro e o fato não me pareceu ligado a qualquer critério repressivo ou medo de fuga em massa, embora, é claro, o regime tenha lá suas defesas. Cuba é ainda um país subdesenvolvido dependente do exterior em questão de indústria e tecnologia e tem que economizar divisas, a qualquer preço.

Não posso imaginar que um regime que proporciona, a toda a população, uma situação material razoável, embora ainda não muito boa, possa ser trocado pela miséria capitalista dos países latino-americanos. Pelo menos, para a maioria das pessoas, isso seria impensável, além de outros fatores, especialmente a intensa participação de todos no processo político.

É claro que existe a marginália. Encontrei pelo menos três rapazes, em Havana, que me propuseram o câmbio negro, querendo trocar um dólar até por dez pesos quando, no câmbio oficial, o peso vale mais do que o dólar, o que mostra bem, como, aliás, em todos países socialistas, a defasagem entre a economia real e o artificialismo político provocado pela intervenção estatal.

A classe capitalista foi exterminada, exilada para Miami, onde, pouco a pouco, domina a própria máfia local, enviada ao “paredón” ou, simplesmente, converteu-se ou se acomodou à nova situação.

É difícil imaginar que o negro Gonzales, por exemplo, agrônomo, culto, inteligente, com experiência no exterior, prefira viver num país como o Brasil, onde seria discriminado, teria pouca ou nenhuma possibilidade de emprego ou de ascensão social, quando, em Cuba, ele é útil, tem dignidade, vive bem e participa do processo social em pé de igualdade com todos os outros cidadãos.

É necessário considerar que, no Brasil, por exemplo, são muito poucos aqueles, como eu próprio, que podem viajar para o exterior. Mas, de qualquer forma, o intercâmbio internacional se faz, embora, no momento, os cubanos viagem muito mais -e, quase exclusivamente – para os países socialistas, em missões oficiais, de estudo ou de cooperação.

O lazer, por enquanto, é feito aqui mesmo e, para isso, não faltam hotéis, bares, restaurantes, rumba e muito rum de boa qualidade.

Livro é barato, quase doado. Não visitamos nenhuma Universidade e não dá para avaliar o que se ensina, mas a coisa deve ser controlada, ideologicamente, pela amostra que tive das comunicações dos congressistas cubanos.

Sexo não é reprimido, embora os homens continuem machistas. Mas a mulher cubana possui outra dignidade e grande peso no processo social. São, no entanto, feias, tendendo à gordura ¾ comem demais e mal ¾ e a primeira geração da Revolución, do ponto de vista estético, ainda não é grande coisa. Também, pudera! São séculos de má alimentação, péssimo atendimento à saúde e falta de higiene. Ainda estão, por aqui, na época de tirar o atraso, mas pela propaganda que vejo em todos os lugares, começa a nascer um novo padrão de saudabilidade que aponta para os exercícios, alimentação racional etc.

As crianças são excelentemente bem tratadas, embora com firmeza. Não vi discriminação religiosa e, como já relatei, estava ao meu lado, no “Acto Nacional” do 26 de Julho, em Santiago, um Monsenhor não sei das quantas, ouvindo e aplaudindo Fidel. Na visita aos CDRs, vi casas cuja salas ostentavam, nas paredes, as imagens católicas de sempre, mas não fui a nenhuma Igreja, que eu não sou mais dessas coisas, nem mesmo por curiosidade…Aliás, aplaudiria de bom grado o desaparecimento da religião institucionalizada em qualquer parte do mundo, contanto que isso não fosse realizado na base da porrada!

Em geral, os cubanos são alegres e conversadores, salvo se se tenta alguma piada com o que eles chamam de “revolución”. Admitem a crítica mas, não, o ridículo. O rádio e a TV são dois instrumentos de propaganda – como, aliás, em todo o canto – e, segundo percebi, bem humorada e, portanto, mais eficaz.

Como sempre, “Fidel” e a “Revolución” são temas onipresentes, o inimigo número um é o imperialismo e a besta do Apocalipse são os EE.UU., com toda a razão, aliás. A URSS é a suave namorada, às vezes, figura maternal, a quem todos são agradecidos. As notícias internacionais são dadas sem grandes adjetivos, salvo se se trata da política exterior norte-americana ou de algum regime fascista, tipo Pinochet.

A América Latina é bem tratada e os cubanos evitam meter o cacete nos outros países. Somos, enfim, todos explorados, igualmente, e a estratégia me parece ser a de buscar a simpatia dos latino-americanos, em geral. Desta forma, longe os tempos de exportação revolucionária, é que se pode entender o lema de “Cuba, o primeiro território livre da América”.

Percebo que os cubanos não dão muita bola para a privacidade alheia. Vão chegando e vão perguntando tudo. Na maioria das vezes, até por gentileza, para nos deixar à vontade. Mas não esperam que a gente diga; perguntam logo de saída…

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  1. Comemoram em Brasília Dia da Rebeldia Nacional em Cuba

    O 55 aniversário do assalto aos quartéis Moncada e Carlos Manuel de Céspedes foi comemorado em Brasília com um encontro organizado pela Associação Nacional de Cubanos Residentes no Brasil “José Martí” – ANCREB, entidades de solidariedade a Cuba e o Núcleo de Estudos Cubanos da Universidade de Brasília.

    No evento, realizado no sábado 26 de julho no acolhedor Café da Rua 8, no centro da cidade, participaram aproximadamente 300 pessoas. Presidido pelo Embaixador de Cuba no Brasil Pedro Núñez Mosquera, contou também com a presencia de funcionários da Embaixada cubana, assim como representantes da Embaixada da Venezuela. Assistiram, ainda, dezenas de cubanos residentes em Brasília, e amigos de vários países latino-americanos.

    As palavras de agradecimento foram proferidas por Tirso Sáenz, presidente do Capítulo de Brasília da ANCREB, enquanto o embaixador Núñez Mosquera destacou a importância histórica da data e o seu significado no processo revolucionário do povo cubano, ao longo de todos estes anos, na qual o 26 de julho de 1953 constituiu o início de uma nova etapa da Revolução.

    As palavras do Embaixador foram seguidas pela leitura emocionada do poma “Já estamos em combate”, de Raúl Gómez García, realizada pelo compositor brasiliense Décio Coutinho, que também interpretou várias canções da sua autoria.

    A continuação se apresentou um grupo musical formado especialmente para a comemoração, com três vozes, guitarra e percussão, integrado pelo chileno Rodrigo Hernández e os brasileiros Jorge Macarrão e Márcio Bomfim. Interpretaram um amplo repertório de músicas latino-americanas, várias delas cantadas em coro pelos presentes. A atuação concluiu de forma especial, com um público eufórico dançando ao som da Guantanamera.

    A noite se transformou em uma manifestação de apoio a Cuba e sua Revolução, na que compartiram juntos, mais uma vez, cubanos residentes no Brasil e amigos latino-americanos. E estiveram presentes também, nas imagens projetadas no telão, nas fotos e cartazes que conformavam a decoração e no coração de quase todos os que ali se encontravam, os 5 Heróis cubanos presos em cárceres norte-americanos.

    Foi uma comemoração digna da histórica ação revolucionária do Moncada, um emocionante e acolhedor evento de solidariedade a Cuba. Predominou a simpatia e a contagiante alegria que tanto identifica aos nossos povos, e compartiram todos como irmãos, entre bandeiras, discursos, poemas, aplausos, abraços, músicas, comidas e bebidas típicas.

    E quando já bem entrada a noite se levantaram as vozes dando vivas ao 26 de julho, os ali presentes aplaudiram juntos, e brindaram todos, felizes, pelo 55 aniversário do glorioso assalto ao quartel Moncada. Somos os latino-americanos povos realmente irmãos, ninguém duvide, e que a nossa história comum de lutas e de vitórias nos proteja a todos e nos mantenha para sempre unidos e solidários.

    Pablo Saínz Fuentes
    Associação Nacional de Cubanos Residentes no Brasil “José Martí”
    http://www.guantanamera.com.br

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