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Cuba Libre: impressões de uma viagem IV

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Outro episódio interessante, ainda hospedado em Bayamo, foi o “Acto Nacional” do 26 de Julho.

Em Santiago de Cuba, a 100 Km do hotel, debaixo de um sol de rachar, 200 mil pessoas se espremiam numa enorme praça, rodeada de tonéis de água, onde nos refrescávamos de vez em quando. Reservaram as primeiras filas para os visitantes, inclusive nós, os congressistas-historiadores, e, exatamente, às seis horas da noite, como previsto, falou o próprio Fidel.

O sol se põe às 20 horas e pude ver, sem muita nitidez, a figura do Comandante, a uma distância de uns 200 metros, num palanque bastante alto. Na verdade, via um vulto característico desde que, além da distância, havia um púlpito e um microfone à sua frente.

Confesso que já estava de saco cheio, pois, de fato, detesto discursos e comícios e, praticamente, desde, pelo menos, às 4 da tarde esperávamos a chegada do homem, debaixo de inúmeras palavras de ordem, disparadas por animadores, tudo em louvor da Revolución e de seu Comandante em chefe.

Aliás, mesmo que não quisesse ir ao grande comício, dificilmente poderia ter fugido ao evento pois era, na ocasião, o único brasileiro que restava no Congresso e os apelos dos dirigentes foram bastante incisivos, embora gentis.

Em Santiago, vi uma massa muito disciplinada que ia, sem muito ruído, se aglomerando sem tumultos, embora, de vez em quando, houvesse alguma animação em termos de palavras de ordem. Para vislumbrar as últimas filas de pessoas, precisava subir na minha própria cadeira e, assim mesmo, não conseguia visualizar de todo a multidão.

Não havia nenhum aparato militar. Um ou outro carro de polícia, muitas ambulâncias – calor de quase 40º graus – e muitos tanques d’água, onde se disputavam, com muito vigor, alguns goles.

Felizmente, o discurso de Fidel durou apenas uma hora e 45 minutos, incluindo os inúmeros gritos de aclamação e palmas que o interrompiam. Discurso moderado, o homem fala bem pra burro, agradável de se ouvir, às vezes, um pouco picaresco. O povão delirava. Por precaução, eu me levantava todas as vezes em que o pessoal da tribuna o fazia, acompanhando a multidão e meus vizinhos de fila, mas somente batia palmas quando me dava na telha.

A cerimônia foi simples, com o único discurso de Fidel, precedido de apresentação de personalidades e de entrega de medalhas a estudantes e trabalhadores. Estudo e trabalho, aliás, parecem ser as únicas coisas dignas de aplauso em Cuba! Possivelmente, se eu fosse cubano, já teria ganho algumas delas, pelo menos antes da fundação do PAHC (Paraíso Anarco-Hedonista de Candeias).

Ouvi muitos comentários sobre o discurso de Fidel Castro e me perguntaram bastante se eu havia gostado. Gostara, embora nem por isso me tivesse subido algum ardor revolucionário. Estava ali mais para ver e ouvir do que mesmo participar, como um turista que vai ao candomblé, por exemplo, sem querer fazer nenhuma comparação, apenas com um espírito de curiosidade, embora sabendo o significado do evento. Sentei-me entre um professor boliviano e um padre, ambos vibrando com o comício e, principalmente, com o discurso de Fidel.

Quando saíamos do local em direção ao ônibus, cruzei com um senhor, negro de cabelos embranquecidos, que ostentava umas três medalhas pregadas à altura do peito esquerdo. Cumprimentei-o, perguntando-lhe o significado das medalhas. Com bastante orgulho nos olhos, ele me explicou, “destacado”, isto é, devagar: medalha pela guerra revolucionária, pois estivera na guerrilha em Sierra Maestra; medalha pela guerra clandestina, período em que fazia agitação urbana; e medalha do trabalho, por ter sido considerado o “mejor tabajador”, numa das safras de açúcar.

O velhinho, quase isso, bem que tinha razão de estar orgulhoso!

Numa das minhas esticadas de pernas, deparei-me, na primeira fila do nosso reservado de convidados, com a secretária do CDR-7, de Bayamo. Reconheceu-me e, eufórica, quase em estado místico, me deu o maior abraço, beijando-me no rosto e se dizendo muito feliz de reencontrar “el brasileño”.

Sempre tenho dito que considero quatro pessoas juntas como uma multidão, sentindo-me bastante inseguro no meio delas. Pela primeira vez, esqueci-me de que estava no meio de uma verdadeira multidão, não me sentindo intimidado nem receoso. Apenas curioso e tentando prestar atenção a tudo.

Depois do comício, Gonzales me procurou no ônibus para se despedir, pois ficaria em Santiago para ver os filhos, que moravam com sua ex-mulher naquela cidade, além do que o Congresso terminara e, no outro dia, embarcaríamos para Havana.

Trocamos endereços e, confesso, teria muito prazer em recebê-lo, aqui, em Candeias. Ele me perguntara, aliás, se eu gostaria de viver em Cuba. Respondendo negativamente, evitei sua decepção afirmando, jocosamente, que eu era um preguiçoso nato e, em Cuba, se trabalhava demais. Apertos de mãos, sorrisos, promessas de troca de correspondência e lá se foi Gonzales se encontrar com seus filhos.

Em Bayamo, não houve mais nada de interessante, salvo a doença de Ribeiro, meu companheiro de quarto. Começou com uma simples caganeira, mas se prolongou até ao anoitecer, gastando todo o meu estoque de Lomotil. Tive que chamar o médico do hotel, que, logo, o internou no hospital da cidade.

Com tal episódio, embora às custas do pobre Ribeiro, pude ter meu primeiro contato com a assistência médica cubana que me pareceu perfeita e sem formalidades. Exames feitos, o colega tivera uma crise aguda de amebas, pelo que ficou três dias internado, saindo bonzinho embora com algumas recomendações em termos de dieta especial e novos exames quando voltasse ao Brasil.

Visitei Ribeiro por duas vezes, no Hospital de Bayamo. Simples, quase pobre, mas não miserável, plaquetas de indicação escritas à mão, algumas improvisações, notando algumas indecisões sobre quem manda em quem. Na verdade, é difícil distinguir um médico de qualquer outro funcionário, pois todos parecem iguais, saídos do povão e sem nenhuma sofisticação ou maneirismo aparente.

Dois episódios interessantes a notar, contudo. Na primeira noite de visita ao Hospital, por volta das 11 da noite, vindos de uma festa, eu, Iglésias e Novaes ficamos numa sala de entrada confabulando com uma recepcionista sem convencê-la a nos deixar entrar. Chamada uma médica, Fernando conseguiu, finalmente, ir até Ribeiro que já estava medicado e alojado, provisoriamente, na UTI, em razão da lotação dos leitos normais disponíveis.

Enquanto Fernando falava com Ribeiro, no interior do Hospital, chegou um bêbedo que, não obedecendo à proibição da atendente, entrava pelo corredor, cambaleando e falando alto e engrolado. Na verdade, bêbedos e loucos são a própria transgressão do real. Na minha cabeça, pensei que iriam chamar a polícia e que o pau iria quebrar. O bêbedo, um negro baixo e entroncado, fazia um carnaval danado.

Coitado! Pensei. Esse aí vai dormir no xadrez. Nada disso. Um enfermeiro, um médico e a própria atendente pegaram-no pelos braços e, com uma paciência infinita, conseguiram levá-lo até a porta da rua, depois do que voltaram calmamente aos seus afazeres normais. O jeito foi ficar rindo com o caso.

A segunda visita foi realizada na companhia do Presidente da ADHILAC, cubano e catedrático da Universidade de Havana, membro do CC do Partido e que, de certa forma, botava uma certa banca de importantão. Os funcionários o trataram da mesma maneira que aos outros e foi um sufoco para que ele chegasse ao médico de plantão.

Fui me esgueirando atrás do Presidente, apesar dos protestos da recepcionista, e lá dentro me deparei com um rapaz de uns 30 anos dando uma lição ao Professor Dr. Pividal, espécie de historiador-chefe dos cubanos, sobre caganeira e dos cuidados que o hospital tivera para combater as amebas de Ribeiro. Vinte minutos depois, eu próprio perguntei – com muito respeito e gentileza, identificando-me como brasileiro e colega do doente – se nós poderíamos visitá-lo.

O médico, muito calmo, estranhando minha pergunta, respondeu:

– Como non? Por supuesto!

Para isso, no entanto, tivemos que vestir uma bata azul, encontrando Ribeiro muito abatido porém já recuperado, e que nos afirma que o trataram muito bem e que estava satisfeito com o hospital, apesar da simplicidade e relativa “pobreza” das instalações.

Tal pobreza e simplicidade, parece, implica – pelo menos, para nós, visitantes – ter muita paciência, especialmente por que os cubanos concentram as informações e não têm muito sentido da individualidade. Parece, por exemplo, que eu deveria ter nascido já sabendo de tudo o que se passa em Cuba e que, se Ribeiro estava aos cuidados do Hospital, isso era o suficiente para nos deixar sossegados. O fato é que, no início da internação, Ribeiro estava muito preocupado, somente relaxando depois de nossa primeira visita.

A medicina preventiva, social, coletiva, comunitária, ou seja lá o que for, é prioridade por aqui e, seguramente, caganeira é uma “doença” bastante conhecida!

O mais importante é que em cada fábrica, em cada escola, em cada hotel, em cada tudo – até mesmo uma viagem turística – há um médico de plantão E eles têm fama de serem muito bons. Não há a empostação da medicina brasileira – e capitalista? – mas as doenças são bem diagnosticadas e curadas. Quando possível, é claro.

O médico que nos acompanhou de Bayamo até Havana, num comboio de quatro ônibus, era um mulato, extremamente calmo e simpático, vestido como todo o mundo, mas que me pareceu muito competente. Além disso, o atendimento é imediato, sem fila, sem burocracia e…gratuito!

A viagem, de Bayamo até Havana, durou 12 horas de ônibus. Paisagem banal, fruto da monocultura da cana, sem as variações do campo europeu e, portanto, muito parecida com nossa zona da Mata. Mas, assim mesmo, me pareceu interessante porque paramos, diversas vezes, em pequenas cidades do interior, em que visitávamos bons hotéis, sendo um deles, pelo menos, um belíssimo cinco estrelas.

No interior, as cidades não difeririam  muito das nossas se não fosse algumas mudanças significativas, como a limpeza, a ordem e a ausência de miséria. As casas, na verdade, são pobres, diria melhor, modestas, mas limpas e bem cuidadas e, nisso, me parece residir uma das influências dos CDRs.

Realmente, não há miséria. Todos têm casa, alimentação, vestuário decente, educação e saúde. E são todos mesmo. Não há discriminação social, nem racial. Nosso acompanhante, em Bayamo, por exemplo, era negro e não percebi nenhuma atitude de sua parte que indicasse algum complexo de superioridade ou de inferioridade, bem como dos brancos frente a ele. Trata-se de um cidadão como os outros, além, é claro, de sua boa qualificação profissional.

Embora a maioria da população cubana seja negra, incluindo os mulatos, me pareceu espetacular o fato de que, trinta anos depois da Revolución, a integração dessa maioria, antes totalmente discriminada, seja, senão completa, pelo menos, a nível do visível, um dos mais belos produtos revolucionários. Os negros se misturam com os brancos e estes com aqueles, sem nenhum problema aparente.

Todos, na verdade, eram povão e, agora, são cidadãos cubanos no mesmo pé de igualdade. Pouco a pouco, a gente se incorpora ao mesmo espírito e deixa de avaliar as pessoas pelas suas características exteriores, o que significa – para meu próprio espanto – que tenho sido, no Brasil, bastante impregnado pelo racismo. Se não fora assim, não teria precisado fazer nenhum esforço de adaptação como, igualmente, não teria sequer anotado o problema.

Creio que a viagem de ônibus durou tanto tempo mais pelo excesso de cuidado e por um pouco de burocracia dos guias. As duas ou três paradas foram muito demoradas com os funcionários, que nos acompanhavam – em número demasiado – contando e recontando as pessoas, inúmeras vezes, como se tratasse de uma excursão com crianças e, por isso, os ônibus demoravam muito a partir.

DimasLins

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