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Cuba Libre: impressões de uma viagem III

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HAVANA – 29-07-l983

Comecei a escrever há cinco dias passados e, depois, interrompi por causa da chegada dos mexicanos. De certa forma, eles viraram a mesa do Congresso, como haviam feito em Quito, quebrando, freqüentemente, o protocolo. Alguns cubanos gostaram, outros, os dirigentes, fizeram cara feia.

Durante o Congresso, aconteceram coisas interessantes, duas das quais merecem ser contadas.

No dia 25 de Julho, fomos fazer uma visita aos CDRs (Comitê de Defesa Revolucionária), uma espécie de “Grupo dos 11″, imaginado por Brizola em 1963. Trata-se de organizações de massa, agrupando algumas ruas, por bairros, com uma diretoria eleita de dois em dois anos. O CDR é encarregado da doutrinação básica, de festas, de discussão de problemas locais, de organizar a vida comunitária e se juntam em federações, por todo o país.

Como o dia 26 de Julho é feriado nacional, comemorando-se o assalto ao Quartel de Moncada, em 1953, toda a semana se constitui num verdadeiro carnaval, embora as festas sempre ocorram à noite, porque a produção não pode parar. O exemplo brasileiro ainda não chegou por aqui, ou melhor, o exemplo brasileiro foi banido daqui!

As ruas são enfeitadas, não passam carros, que são pouquíssimos, na verdade, come-se, bebe-se e, sobretudo, dança-se. Os congressistas foram divididos em grupos nacionais para a visita aos CDRs, em Bayamo, onde a festa é mais ruidosa pois o Quartel de Moncada fica, justamente nos seus arredores, e é por isso que tal cidade é considerada “Ciudad Histórica”, na Província de Gramma.

Era o único brasileiro presente, desde que Amaral Lapa, Fernando Novaes, Francisco Iglésias e Pinsk haviam se mandado para Havana, um poucos entediados pelo meio provinciano, enquanto que Ribeiro estava hospitalizado, por efeito de uma infecção intestinal brabíssima.

Incorporei-me à bagunçada delegação mexicana e, quando o “jefe” de nosso ônibus – todos tinham um deles – pedia que o Brasil fosse para outro grupo, eu me escondia atrás da poltrona e todos riam. Não consegui entender bem a insistência de me transferirem de ônibus, desde que eu era o único brasileiro presente e, portanto, não importava em qual grupo estivesse.

Mas, era assim que eles tinham planejado e era assim que devia ser feito. Desta vez, não foi, com a cumplicidade mexicana, embora meu “guia” Gonzales, percebendo que eu não mudaria mesmo de grupo, tivesse resolvido, por precaução, segundo creio, se transferir para o grupo para o qual eu havia sido designado. Acredito que, com Gonzales, o Brasil tenha sido bem representado! Fizemos, pois, os organizadores de bobos e alguns cubanos ficaram de cara feia para o meu lado.

No CDR No.7, falamos com o “povão” livremente, sem nenhuma tutela. Meninos e meninas, bem vestidinhos tipo festa de São João, nos pediam, constantemente, autógrafos para os seus álbuns de recordação, o que me fez voltar lá prá minha infância, quando existia tal hábito no Recife, ou mesmo para as festas em Bonito, onde passei algumas férias de São João.

Havia uma certa admiração pelo Brasil e todos mostravam interesse em saber coisas, tipo se “la dictadura militar se vay a acabar”, a abertura política etc., etc.

O presidente do CDR-7 é operário de uma fábrica de leite em pó, antiga Nestlé confiscada. A secretária, uma senhora aí pelos 50 anos, me deu um certo medo pelo seu ardor revolucionário e um ar um tanto autoritário.

Justamente à secretária, fiz perguntas sobre eleições, locais e gerais, processo político cubano, como funcionavam os CDRs, etc. Segundo tais informações – e eu não me responsabilizo por elas – todos podem entrar no CDR, independentemente de posição ideológica, exigindo-se apenas o compromisso de defender a Pátria e a Revolução.

Observei à citada senhora que isso me parecia uma exigência complicada, pois defender a Revolução já supunha um posicionamento ideológico prévio.

É claro que ela não concordou comigo pois, segundo suas palavras, “a Pátria era a Revolução e a Revolução era o Povo”, aparecendo tal triangulação, para ela, pelo menos, destituída de qualquer conteúdo ideológico. Um fato natural, nada mais do que isso, o que não deixa de ser um típico raciocínio positivista, embora deturpado.

Perguntei-lhe, ainda, sobre os mecanismos de fazer chegar ao Governo a vontade do povo e a resposta, de certa forma, me surpreendeu. O Governo, segundo a secretária, sempre sabe o que o povo quer, porque o Governo é “el pueblo”.

Sendo assim, pensei com meus botões, a recíproca deve ser verdadeira, isto é, “el pueblo” sempre sabe o que o Governo quer, porque “el pueblo” é o Governo e, por isso, talvez, aquele seja tão bem comportadinho!

Segundo a Secretária do CDR-7, não há critérios para identificar alguém que é contra a Revolução, a Pátria e o Povo. A prática, segundo ela, mostra quem é quem, o que seria muito perigoso, segundo lhe fiz ver, pois termina todo mundo concordando com quem está no poder, especialmente quando a hierarquia é muito rígida.

Mas não existe tal perigo, segundo a Secretária. Todos os assuntos são previamente discutidos pelos CDRs e pelas Federações, tanto os que são levantados pela massa, quanto os que provém do Governo e tudo somente é executado depois da aceitação por esses verdadeiros “soviets”. Em teoria, tudo bem! Não deu para ver a prática, pois o tempo era pouco e, afinal, estávamos em festa!

Mas, em Cuba, como os cubanos! Muita comida, bebida e música. Meia noite, hora dos discursos, fogos de artifícios e hino nacional. Começam os festejos do 30º aniversário do assalto ao Quartel de Moncada, em todos os lugares da Ilha. O hino nacional é uma constante – aliás, como em todos os países do mundo, inclusive, em Candeias! – mas só assisti tanta postura solene na França, no Equador e em Cuba. Seguem-se alguns discursos provincianos, de exaltação à Pátria, à Revolução e ao Povo. O companheiro Fidel é citado a torto e a direito, terminando-se por um “Viva à Cuba, ao Partido, à Revolução”. E aos visitantes, também!

Uma expressão, no entanto, sempre encerra qualquer cerimônia: “Pátria o muerte!”, que é respondida pelos presentes com o brado de “Venceremos!”. Prudentemente, apenas gritei o “Venceremos!”, desde que nunca estive muito certo desse negócio de dar minha vida por esta coisa tão abstrata que é a Pátria.

Depois dos oficialismos, os cubanos são um povo como qualquer outro, embora o assunto preferido seja a política. Ficam perguntando o tempo todo se “estamos gostando” e fazem tudo para nos satisfazer, insistindo muito para que comamos mais, bebamos mais e dancemos mais.

Imagina o “velho barrigudo solitário e rabugento”, um pouco cansado, mais ou menos sisudo, e que anda de saco cheio com política, fazendo um esforço danado para ser amável, falante e bem-humorado! Na maioria das vezes, finjo que não entendo nada, mas sempre lá está alguém para me explicar novamente tudo o que se passa.

Descobri o óbvio durante a visita aos CDRs. Desde a minha chegada, passava pela minha cabeça que faltava qualquer coisa, um certo incômodo em sentir e não saber o que era. O aspecto das pessoas, vestidas com simplicidade e, às vezes, até com um certo exagero, em geral de mau gosto, o indefectível “compañero”, uma certa impessoalidade com que os cubanos se movem em torno dos objetos, uma certa aparência de máquina bem azeitada, em que ninguém é mais importante do que ninguém, exceto pela função ou tarefa que exerce, todos abordando todos.

É isso aí! De repente, me veio à cabeça: “No hay clase dominante!”.

Serão aquelas mesmas pessoas, historiadores, funcionários, guias, recepcionistas, operários, donas de casa que dominam Cuba? Não há nenhum dominador visível. Apenas uma coisa concreta: Fidel,”el Comandante”. Uma coisa abstrata: “el Partido”. Uma relação dialética: “la Revolución”. No resto, cada qual executa sua tarefa e a coisa parece funcionar.

A minha impressão, quando da visita aos CDRs, é que o povão – conceito, aliás, somente possível numa sociedade de classes – não existe mais como, igualmente, não mais existe classe dominante. É difícil não deixar de estranhar – pelo menos, numa primeira vez – e é necessário fazer um acerto, ou acordo, mental para se adaptar.

Fui abordado, a certa altura, por um negro, já velho, com cerca de 70 anos. Conversamos bastante e lhe perguntei, entre outras coisas, se ele conhecia outros países. Viajara à URSS e a outros países socialistas, para onde fora como prêmio por ter sido ganhador da medalha de “mejor trabajador”. Sua filha estuda Filosofia na União Soviética e, ele próprio, depois de aposentado, fizera um curso supletivo para professor, ensinando Biologia no curso secundário. Sabendo que eu era escritor (?), chamou sua filha mais nova – de uns 15 anos, mais ou menos – para que lhe desse um autógrafo!

Fomos, eu e os mexicanos, um pouco hereticamente, visitar outros CDRs vizinhos sob um leve protesto do guia que nos explicava, não sem razão, que, se começássemos a trocar de CDR, uns ficariam esvaziados e outros com visitantes em demasia.

Naquela altura, na verdade, todos já estavam bêbedos e o guia terminou por nos acompanhar, também. As famílias colocam suas cadeiras e mesinhas nas calçadas, quando não na própria rua sem trânsito, fazendo muita cantoria e atraindo conjuntos musicais – creio que muitos deles, senão a maioria, improvisados. Mais uma ocasião para comer, beber e dançar.

A festa, na verdade, parece um pouco com o 14 de Julho francês, embora, como estivéssemos numa cidade do interior, o espírito fosse muito mais familiar, aconchegante, mais para Bonito do que para Paris. De minha parte, em termos de festinha de bairro, prefiro Bonito!

O povo me pareceu muito consciente do que está fazendo, muito orgulhoso de ser o “primeiro território livre da América”, como dizem constantemente de Cuba, não me parecendo carneirinhos num rebanho, mas participantes ativos de um processo social que os empolga.

Sempre que os congressistas saíam para uma visita, os ônibus eram acompanhados por dois batedores de motocicleta, um carro de polícia e uma ambulância, o que me surpreendia um pouco. O trânsito parava à nossa passagem e, muitas vezes, os pedestres nos acenavam.

Isso foi uma constante, principalmente, na longa viagem de regresso a Havana, que durou cerca de 12 horas. Nesse trecho, pude verificar o sentido de tanto acompanhamento. Com um calor de quase 40º graus, com uma comida excessivamente gordurosa, com uma porção de velhinhos na comitiva, houve pelo menos duas situações em que o médico da Ambulância teve que intervir. Depois de tais episódios, aliás, não me incomodei mais com o fato, pois, poderia ser, perfeitamente, o próximo a precisar de socorro!

InscritosEmPedra
  1. “não me parecendo carneirinhos num rebanho, mas participantes ativos de um processo social que os empolga”. Qual será o segredo? Porque será que a fé destes homens numa revolução concretizada nos causa tanta estranheza, tanta desconfiança? Talvez porque nós não conheçamos o que eles conhecem.
    Magnífico.
    Seguindo…

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