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Cuba Libre: impressões de uma viagem II

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A nova etapa da viagem somente começaria às nove da noite e, portanto, ficamos presos no aeroporto de Havana por mais de seis horas sem que nos deixassem, pelo menos, dar um pequeno passeio pela cidade, embora tenham nos servido, gratuitamente, sanduíches com laranjada e cerveja.

Não entendi, pois, por que tanta pressa, em Lima, desde que haveria tempo de sobra para pegarmos a conexão para Holguin. Na verdade, o motivo real – e que se repetiu, várias vezes – parece ser o “efeito colméia”, isto é, todo mundo tem que andar junto, em grupo, “cuidado”, “comandado”, “guiado”, ou seja lá o que for, por um funcionário de turismo.

Foram seis horas de “conversa mole”, de irritação e de “críticas burguesas” de nossa parte, mas, assim mesmo, os funcionários se mantiveram gentis e firmes como que nos protegendo de algum possível malefício.

Quando perguntei por que não poderia ir a Havana, o “compañero” Pepe me perguntou, simplesmente, “qual o interesse que eu tinha de ir a Havana”, isto é, se iria fazer alguma coisa ou, antes, se eu precisava fazer alguma coisa. Parece que o espírito burguês de vagabundagem foi totalmente extinto em Cuba!

Na chegada a Havana, ocorreu, como já me referi, o meu primeiro contato com a burocracia cubana. Passamos uma hora numa fila imensa somente para carimbar o passaporte e não adiantava ficar impaciente ou fazer reclamações. Era assim mesmo e pronto!

Observava que, a cada passaporte apresentado, o funcionário fardado conferia uma longa lista de nomes para, depois, liberar o passageiro. É claro que o luxo da revolução cibernética ainda não chegou, aqui, pois um pequeno computador teria resolvido o problema em segundos. Mas, o problema maior não foi a espera e, sim, o calor infernal que fazia. O próprio guarda, ao saber que éramos historiadores convidados, nos sorriu, parecendo-me mais simpático embora eu não tivesse notado nenhuma estupidez no trato com os passageiros, todos de língua espanhola, inclusive cubanos. Apenas uma postura um tanto quanto impessoal numa implacável procura na listagem  que tinha diante de si.

Quando, finalmente, nos liberou, sorriu e nos mandou falar com o amigo Pepito, o sisudo burocrata que nos confiscou os passaportes, encaminhando-nos ao bar, onde ficamos tomando cerveja de 15 graus, que me pareceu bastante forte.

Ficamos, então, a conversar e olhar os tipos. O aeroporto de Havana é muito simples como, aliás, tudo em Cuba e não há comentários a fazer, exceto que todo o serviço é feito por garçonetes.

Quando um de nós pediu água, em vez de cerveja, elas não entenderam.

– Não quer cerveja? Por que? – Interrogaram.

A mesa era de seis lugares, mas sentou-se conosco – seis brasileiros – um boliviano, com cara de índio e sorridente o tempo todo, amigo de um dos nossos. Novamente, os cubanos não entenderam que precisávamos de mais um copo, um sanduíche e uma cerveja.

– Não eram seis? Por que, agora, são sete? – Perguntaram.

De fato, eles tinham toda a razão pois, se uma mesa é planejada para abrigar seis pessoas, não deixa de ser estranho que nela se sentem sete pessoas!

Contudo, gentis, como sempre, acabaram servindo a todos, depois que o maître contou e recontou os lugares e as pessoas de nossa mesa.

Às nove da noite, fomos levados para outro Tupolev, sem passaportes, sem bilhetes, sem nada. Quando protestamos, mais uma pergunta do que mesmo um protesto, pois estávamos meio assustados – pelo menos, eu estava! – disseram-nos que não precisaríamos daqueles documentos. Eu e Fernando Novaes, com o apoio de Iglésias, falamos, embora de brincadeira, que retirar nossos passaportes constituía uma violação dos Direitos Humanos, para o que, aliás, não houve nenhuma resposta de Pepito, limitando-se a nos acompanhar até a porta do avião.

Em Holguin, fomos recebidos por crianças e moças que nos deram rosas e beijos (hábito russo?) e nos serviram café. Conversamos besteirinhas e, depois, pegamos um ônibus, de fabricação japonesa, muito confortável, em direção a Bayamo, 60 Km. adiante, chegando ao hotel por volta de uma hora da madrugada.

Já no aeroporto de Holguin, fomos apresentados a Gonzales e Marta, nossos “acompanhantes” cubanos e que, nos quatro dias seguintes, não nos largaram do pé em nenhum momento. Sempre sorridente, Gonzales é agrônomo, negro, trabalhou em Angola e fala português muito mal somente comparável ao nosso espanhol, enquanto que Marta é bióloga, branca e fala, também, um mau português, aprendido igualmente em Angola.

O Hotel é muito bom, equivalente a um 4 estrelas brasileiro, com uma enorme piscina, amplos salões, restaurantes, quartos confortáveis, embora arrumados com simplicidade, com colchões tipo “quebra-espinha” que já experimentara na França e nos Estados Unidos e sobre os quais, na verdade, dormi quase toda a minha infância e adolescência.

O Hotel Sierra Maestra é, em geral, destinado a férias dos trabalhadores e de quem, segundo Gonzales, “tenga la plata”. O problema não foi o hotel nem os colchões, mas a sensação incômoda de estar numa gaiola dourada, limpa, em que tudo é bem organizado, na hora e com precisão.

Em termos de burocracia, Cuba parece funcionar bem – diria, bem até demais. Qualquer ação que fuja ao padrão de comportamento estabelecido é, senão impedida, pelo menos desencorajada. É bem verdade que tal sensação de “prisão”, de “vigilância” foi desaparecendo aos poucos e, nos dias subseqüentes, eu me considerava muito mais solto e relaxado, acreditando que tais sensações eram produto da ausência dos meus documentos, especialmente do Passaporte.

O Congresso da ADHILAC foi preparado pelos cubanos e para os cubanos, em comemoração do 25º aniversário da Revolução.

O termo “cubano” parece compreender todos aqueles que pertençam a um PC ortodoxo qualquer da vida, embora o tratamento cordial e gentil com os “outros”, considerados, como eu próprio, como “intelectuais honestos e progressistas”, tenha sido impecável. É claro que, como “não cubano”, não pude participar de nenhum “cochicho” de corredor, coisa que mais me interessa, em Congressos.

Cientificamente, o Congresso não teve a mínima importância, nenhuma novidade. As comunicações se caracterizavam muito mais como panfletos que, a meu ver, não podem ser levados muito a sério, dada à “retórica revolucionária”, chavonesca, bem como à misturada de conceitos.

Desde o início, fiquei logo pouco à vontade com tal manifestação do ME internacional. Não agüento mais discursos, péssimos, aliás, e, portanto, nada há a comentar sobre o Congresso do ponto de vista científico. Em geral, os PCs fazem má História; os burgueses, no entanto, que se cuidem…

Os tipos de pessoas com quem convivi são muito variados e é difícil descrevê-los todos. O barulho era enorme, pois os latino-americanos, inclusive os brasileiros, é claro, falam muito e sempre em voz alta, o que sempre detestei. Os mais discretos eram os caribenhos de língua inglesa e francesa, todos negros, embora não tivesse mantido contato com eles.

Distingue-se, de logo, um cubano por duas coisas: usam uma camisa padrão, a que chamam de “goiabeira” e só falam de “cuba revolucionária”.

Chega a ser até um pouco patético o desejo de aprovação por parte dos estrangeiros a tudo o que ocorre em Cuba. Diria, também, provincianismo, mas é preciso tomar cuidado com as aparências. Pouco a pouco, se é levado a comparações e começa a surgir um certo incômodo, em alguns departamentos, em relação à nossa própria realidade.

Mas, sem dúvida alguma, trata-se de um povo orgulhoso de seu país e digo “povo” porque são todos assim, do garçom do bar ao diretor científico do Congresso, sem que eu tivesse podido notar diferenciações sociais, exceto na hierarquia de funções exercidas, o que seria perfeitamente normal que ocorresse.

O “provincianismo”, creio, está muito mais ligado com o isolamento e com a falta de tempo para pensar em outra coisa que não seja a construção do que chamam de “nueva sociedad”, embora isso não signifique, absolutamente, falta de informação.

Ao contrário, a curiosidade é enorme e eles estão muito mais informados do que se passa na América Latina do que a média brasileira, por exemplo. Do que se passa politicamente, é claro, pois tudo aqui é política e os outros assuntos somente são ventilados quando há provocações explícitas. Parece que todos têm um conhecimento médio das coisas, uma dose padrão de informações, a partir do que todos podem discutir os assuntos sem falar, é claro, dos especialistas.

Entretanto, em Cuba, tudo é e não é! A partir de tal “padrão” – um pouco dogmaticamente estabelecido, para o meu gosto – não se pense que os cubanos só dizem chavões. Eles admitem a crítica e reconhecem as coisas ruins, embora sempre encontrem uma maneira de recuperar o “defeito” em termos de falhas “naturais” do processo ou de “permanências” de vícios anteriores à Revolução.

Na verdade, a única coisa incontestável é a Revolução. E não estou falando apenas dos congressistas, todos universitários e professores. Falei com o “povão” nas ruas, mas isso é uma coisa à parte que merece uma reflexão maior. Por enquanto, estou falando, apenas, de generalidades.

O grupo brasileiro de historiadores, de seis pessoas, divide-se em três, mais ou menos quadrados, e três, mais ou menos sofisticados, estes não levando as coisas muito a sério.

A ordem cubana nos provocou, inicialmente, a mim, a Fernando e a Iglésias uma série de piadas e brincadeiras. É preciso se conformar com o fato de que a seqüência programada tem que ser cumprida e qualquer quebra de regras não é entendida pelos cubanos, salvo se houver um motivo político relevante.

Na verdade, tanto lá como cá, os atrasos eram inevitáveis e como o programa era cumprido à risca, ou a gente comprimia o que ia fazer ou, então, entrava noite a dentro com as atividades. No entanto, nossa disposição inicial era ver as coisas de imediato e, portanto, a falta de explicações nos impacientava.

DimasLins
  1. Perrusi Pai,

    Sinto como se o senhor estivesse sentado numa poltrona contando a um pequeno grupo – eu incluída – sobre estas impressões.
    Sigo admirada.

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